30 de Setembro 2022 08:24
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Inês Caetano: Bem-estar do atleta no centro das decisõesExclusivo 

Inês Caetano. Foto: Youtube/reprodução

Por Inês Caetano* (Sports Embassy)

A minha rubrica na edição passada terminava fazendo referência ao papel do treinador na vida a longo prazo do atleta. Nesta edição, gostaria de refletir sobre a forma como é percecionado o Desporto. Será algo que nos prepara (melhor) para a vida toda (toda)? Porque não mudar o paradigma relativamente ao atleta? Porque não considerar que a carreira da pessoa começa quando a de atleta acaba? E se o papel de Atleta for o caminho da descoberta da carreira futura a seguir? Quem deve sentir a responsabilidade (e/ou ser responsabilizado) por fazer parte do crescimento pessoal e académico da pessoa que é Atleta e irá deixar de o ser?

Na nossa formação profissional (em Edução Física e/ou Treino Desportivo) todos temos contacto com o LTAD (Long-term Athlete Development) e, no meu caso, à época da Faculdade, chegaram a pedir-nos alguns trabalhos sobre este modelo e, inclusive, que o adaptássemos às nossas modalidades. Quase 20 anos depois (quase..!) continuamos praticamente sem ter adaptações oficiais deste modelo para referência de clubes, associações, treinadores e até pais e atletas – exceção feita ao futsal, à natação e ao judo, com os resultados que estão à vista de todos. Não me cabe a mim dar opinião sobre esta lacuna no plano desportivo nacional através deste artigo, mas parece-me que continuamos muito atrasados face a outras realidades e que esta falta de planeamento justifica muita coisa, desde logo a falta de preocupação com o pós-carreira. Imagino que, para muitos, esta afirmação não faça sentido.

A visão que o Bruno Avelar Rosa defende e que partilha nesta edição da SportMagazine é algo em que me revejo totalmente. Por sugestão do Bruno, em 2020, tive a oportunidade de fazer uma formação na Case Western Reserve University School of Law sobre a representação do atleta profissional, pois fiquei bastante entusiasmada com o currículo apresentado e achei que ia ao encontro daquilo que procurávamos na Sports Embassy.

Se pensarmos nos empresários de atletas em Portugal (e um pouco por todo o Mundo), geralmente consideramos alguém apenas focado no lado desportivo associado à rentabilidade financeira dos contratos de trabalho e à valorização do atleta do ponto de vista financeiro. O mesmo acontece com outros agentes desportivos em Portugal, quer sejam treinadores ou dirigentes, entre outros. Todos são especialistas na sua área com foco na boa execução das suas tarefas com vista ao alto rendimento (e valorização) do desportista enquanto ativo para o clube e modalidade.

Abordagem holística e globalizada Para mim, fará sempre sentido uma abordagem mais holística e globalizada que coloque o Atleta e o seu bem-estar enquanto pessoa no centro das decisões. Nesse sentido, este curso foi uma enorme surpresa para mim: nos EUA o representante do atleta, para ser certificado como tal, precisa dominar diferentes aspetos relacionados com a carreira desportiva e, por isso, as temáticas abordadas na certificação foram tão distintas, mas, ao mesmo tempo, tão complementares e necessárias.

Desde a relação jogador-agente/representante, a análise de acordos coletivos de trabalho das três principais ligas norte-americanas, aos castigos aos jogadores por comportamento impróprio dentro e fora de campo, à criação de uma agência de representantes, a análise do desporto profissional vs. desporto juvenil, a proteção dos direitos de publicidade dos atletas e a maximização das suas marcas, passando pelos os contratos de licenciamento, o histórico de direitos de publicidade e a comercialização da imagem dos atletas de forma eficaz, nada é deixado ao acaso. Pois, a reconstrução da reputação de atletas que prejudicaram os seus clubes e marcas, o papel do consultor financeiro na gestão de fluxos de renda que mantenham o estilo de vida do atleta no pós-carreira, a proteção dos ganhos por meio de apólices de seguro, a preparação para o pós-carreira, a tendência para a longevidade do desportista em particular no ténis e no golfe, são igualmente abordados.

A abrangência da certificação não esquece como pode o atleta diversificar a sua marca pessoal ou como um representante potenciar a marca do atleta através de acordos patrocínio com cláusulas de adequação e moral devidamente redigidas. A análise da vida e carreira de um jogador profissional de futebol desde juvenil até ao pós-carreira, a decisão de continuar ou não a competir após uma série de lesões, empréstimos e transferências, a gestão do sucesso extradesportivo vs. o foco no sucesso competitivo, a análise de um clube profissional de futebol da liga inglesa, através do testemunho do seu presidente em temas como as cláusulas contratuais no futebol…

Parece extenso? Eu diria antes que parece outro mundo, quando comparado à ideia que temos em Portugal da carreira a longo prazo do atleta e do papel que cada um tem / pode ter neste contexto. Com os devidos ajustes para cada modalidade, e entre diferentes países, existe um estágio que pressupõe o resultado de todos os outros e que é o de “ser ativo para a vida”.

Um atleta ‘morre’ duas vezes?
Ora, a verdade é que nem todos passamos pelo estágio de ‘aprender a treinar’ ou ‘treinar para competir’, mas deveria ser um objetivo coletivo, enquanto sociedade garantir que educamos as pessoas para a prática da atividade física. Além de não termos essa preocupação como prioridade, continuamos a olhar para os ‘miúdos’ que aprendem a treinar e treinam para competir como se fossem apenas atletas. Errado. Porquê? Porque nem todos vão ser profissionais ou, pelo menos, um atleta que possa viver da sua atividade desportiva, e porque, mesmo que lá cheguem, este será apenas um período das suas vidas.

A única certeza que um atleta tem (ou devia ter) é de que vai acabar um dia. Por alguma razão se costuma dizer que um atleta morre duas vezes. E essa consciência deveria ser transmitida por todos aqueles que o rodeiam – treinadores, família e amigos, dirigentes e demais agentes desportivos. Levanta-se então outra questão: o que podemos fazer durante a carreira do atleta, para que este, não descurando da performance desportiva, possa preparar-se para o último estágiodo LTAD,  aquele que nos acompanhará até ao fim das nossas vidas?

Muitas vezes os atletas e treinadores pensam que ter uma atividade extradesportiva vai retirar o foco da performance desportiva e concentram-se exclusivamente no ‘plano A’. Discordo totalmente por várias razões, mas gostaria de enfatizar duas delas. Primeiro, porque nunca sabemos quando quando vai chegar ao fim a carreira do atleta. Pode ser consequência de uma lesão ou falta de aposta por parte dos treinadores, por exemplo. Depois, porque nem sempre tudo corre bem na atividade desportiva. Quando isso acontece, não ter mais nada em que se focar pode prejudicar a recuperação emocional e psicológica porque a tendência é que o atleta fique obcecado nos acontecimentos negativos com frequência. O tal plano B pode, pois, ser uma muleta emocional muito importante e é um plano que tem o peso que o atleta lhe quiser dar.

Fala-se muito em carreiras duais, como se fosse obrigação do atleta estudar na faculdade e tirar um curso superior. Não sou apologista dessa ideia, ainda que ache essencial que exista uma outra ocupação para além da vida desportiva. Um curso de inglês ou uma formação na área das tecnologias, entre tantas outras opções, são importantes para manter o atleta ativo intelectualmente, mas longe da pressão competitiva podem ser muito úteis quando a competição chegar ao fim.

O papel do treinador
Aos treinadores gostaria de deixar o desafio de perguntarem aos atletas se são eles que querem abandonar o desporto ou se vão deixar que o desporto os abandone. Tenho quase a certeza de que a grande maioria vai defender que controla a situação e a hora de decidir parar. É aqui que, mais uma vez, o treinador pode ter um papel mais ativo, bastante mais completo e que, em simultâneo, vai estreitar a ligação com o pupilo. Os treinadores que dizem ‘se vens para aqui pensar no teste de matemática, então podes ir embora’ estão ultrapassados. É necessário alertar, sim, sensibilizar e dar as ferramentas certas aos treinadores, desde que os próprios o queiram. Workshops ou formações versando esta temática são aconselháveis. Reforço, por isso, esta ideia que me parece essencial: aprender a treinar e treinar para competir são apenas pequenas fases das nossas vidas, dois estágios de acordo com o LTAD. Ser atleta ou treinador representa apenas uma parte de quem somos, mesmo que seja uma parcela muito grande. E, pese embora essa importância, devemos saber estar preparados para tudo, controlando aquilo que está ao nosso alcance. Quanto a um planeamento a longo prazo do Desporto em Portugal… não sei se serão precisos mais (outros) vinte anos, mas é essencial começarmos todos a remar para o mesmo lado e percebermos que somos mais fortes a remar juntos.

*INÊS ALVES CAETANO, ex-atleta de pentatlo moderno, esteve muitos anos ligada à formação e treino personalizado e gestão desportiva. É fundadora da Sports Embassy, que se dedica à gestão da interação de ex-atletas com o universo empresarial.

Este artigo é parte da edição n.º 1 da nossa revista, que contém Dossier “A Preparação do Atleta a Longo Prazo”. O material completo está disponível para os assinantes. Se ainda não é, saiba como fazer para integrar o nosso grupo de leitores e colaborar com o nosso projeto.

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