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Rui Machado e o ténis em Portugal: “A quantidade de bons treinadores que tive também me abriram horizontes”

Rui Machado, coordenador Nacional da Federação Portuguesa de Ténis. Foto: Federação Portuguesa de Ténis

Coordenador Nacional da Federação Portuguesa de Ténis (FPT), Rui Machado é exemplo de quem bebeu da experiência como atleta no circuito mundial e faz dela uso nas funções como técnico. A formação é um processo contínuo para o atual selecionador nacional da Taça Davis que, em entrevista publicada na edição n.º 2 da nossa revista, recordou o processo de transição de tenista a técnico e deu conta do trabalho que tem vindo a desempenhar desde 2016 no Centro de Alto Rendimento do Jamor.

SportMagazine – O final da carreira como tenista foi próximo do início do exercício de funções em 2016. Como se processou a sua formação de treinador?

Rui Machado – A FPT tem a tutela dos cursos de treinador em Portugal. Existem três níveis, eu terminei o nível 3, mas não podia fazer todos de seguida. Ainda jogavam quando completei o nível 1 e só mais tarde fiz os restantes. Foram formações que me ajudaram muito a organizar os conteúdos e os conhecimentos e, de certa forma, aprender também outros conteúdos que desconhecia. Além da experiência competitiva, que ajuda muito, existem duas situações que ajudaram muito e que sinto como formação. Durante a minha carreira, tive muito bons treinadores. Tive vários e muito bons. Quando estive em Espanha, tive a sorte de ser treinado pelo Jordi Arrese, que foi medalha de prata nos Jogos de Barcelona-1992. Também trabalhei com outros treinadores que foram capitães da Taça Davis de Espanha, treinei com um dos atuais treinadores do Rafael Nadal. Tive à minha volta muito conhecimento e, quando voltei para Portugal, também. Quando temos um treinador toda a vida, acabamos por ver só uma realidade, uma maneira de ensinar, de passar conhecimentos, quando temos vários, e muito bons – tive essa sorte e também procurei estar perto deles -, ganhamos grande bagagem.

SM – O conhecimento prático é, pelo que acabou de contar, uma formação essencial. No entanto, sei que a sua formação não se circunscreveu a isso…

RM –  Quando deixei de jogar, pelas minhas funções na FPT, tive acesso a muitas formações, muitas partilhas que, de outra forma, não teria tido acesso. Estive em várias conferências da Federação Internacional de Ténis [ITF], fui convidado para falar numa conferência da Tennis Europe [Federação Europeia de Ténis], na conferência mundial da ITF fui convidado para estar em mesas redondas com pessoas como a antiga n.º 3 mundial e campeã de Grand Slam Mary Pierce. Nesse tipo de ações, há troca de ideias entre pessoas com grande conhecimento, essa partilha tem sido espetacular. Faço parte do Comité Profissional da Tennis Europe, obrigatoriamente estabeleço contatos que me ajudam a evoluir.

SM – De que forma esse conhecimento é, depois, passado aos restantes treinadores da equipa técnica do Centro de Alto Rendimento?

RM – Candidato-me, em nome da FPT, a qualquer projeto que a ITF ou a Tennis Europe tenham ligado ao desenvolvimento e formação e, assim, podemos receber aqui no CAR especialistas. Já cá esteve um dos preparadores físicos do Roger Federer, um especialista em biomecânica da ITF… Estou sempre à procura de conhecimento para a equipa toda. Convido treinadores a virem e a formação é contínua. A carreira é muito importante, é andar lá no mundo. A quantidade de bons treinadores que tive também me abriram horizontes neste campo. Depois há que ter capacidade de juntar as peças do que se absorveu de vários lados. Quanto mais sei, mais quero saber e parece que menos sei [sorrisos]. Há um sentimento de humildade que passo também aos treinadores. Se estivermos errados, temos de assumir o erro e estarmos disponíveis para a autoanálise, só assim se melhora.

O passo que vejo é tentar que o processo de treino tenha maior qualidade, mais direcionado para eventualmente ser profissionais desde mais cedo e n\ao só aos 15 anos quando podem entrar no centro de alto rendimento ou quando estruturam uma solução de treino paralela, que também é possível, fui jogador e não havia centro de alto rendimento, temos de respeitar os processos paralelos que tem todo o direito de existir e devem de existir porque não temos espaço para muitos, quantos mais existem melhor par ao ténis nacional. falta que desde mais novos se comecem a preparar um bocadinho melhor os jogadores com visão de longo prazo.

SM – Como têm sido estes seis na coordenação técnica do CAR Ténis do Jamor?

RM – O CAR é um desafio por natureza, porque aqui somos responsáveis pela carreira de uns quantos atletas. Neste caso são nove e, tendo eu sido tenista, sei que cada carreira importa. Neste momento, são seis rapazes e três raparigas. Cada atleta é um mundo, temos essa consciência, por isso isto é um grande grande desafio para toda a equipa. No entanto, também melhorei a equipa aumentando-a, tornando-a muito mais completa. Eu e mais quatro treinadores, um preparador físico, uma psicóloga, que está cá quatro dias por semana, o que é um grande avanço. Ainda estamos uns quantos anos atrasados no desporto de alto rendimento cá em Portugal. Temos um fisioterapeuta a full time que também está disponível para viajar com eles algumas semanas por ano. Basicamente já é uma equipa que dá resposta a muita coisa, comparando com o que encontrei. Eram dois treinadores e um preparador físico. Temos vindo a fazer muitos avanços em termos de organização em termos de processo de treino, em termos do controlo das cargas, estamos cada vez a melhorar mais.

Rui Machado ainda disputa competições e conquistou este ano a medalha de bronze no Mundial de Veteranos por Equipas. Foto: FPT

SM – Esse trabalho já tem o reconhecimento das instâncias internacionais?

RM – Passámos agora para a fase final de um processo de certificação pela ITF. Candidatámo-nos ao nível mais elevado. Há dois anos tivemos uma visita de avaliação da ITF durante uma semana, recebemos aí a recomendação de fazermos o processo de candidatura ao nível mais alto. Tivemos que implementar alguns processos que eram inexistentes, tem sido muito bom porque tem ajudado a melhorar a nossa forma de trabalhar. Ou seja, estabelecemos algumas guidelines em temas aos quais não se dava tanta importância em Portugal, como o bem-estar do atleta, as fronteiras entre treinador e atleta. Aqui tudo funciona muito bem, porque somos uma pequena família, mas convém que as coisas estejam bem definidas. Esperamos ter resposta ainda durante o primeiro semestre deste ano. As coisas estão bem encaminhadas.

SM – Em termos de resultados competitivos, o trabalho no CAR já começa a dar frutos?

RM – Temos obtido resultados a cada ano que passa, mesmo sabendo que o objetivo não vai ser atingido por todos os que passam por aqui. Apesar disso, todos os atletas contam para nós e o que importa é que, durante o processo por que passam aqui, ganhem bases para o futuro. Estão numa idade muito importante. A partir dos 15 anos, há um desenvolvimento pessoal e temos essa responsabilidade, que eles saiam de cá muito mais desenvolvidos e com os valores certos. É uma responsabilidade que temos para com os pais. Do ponto de vista desportivo, importa que sintam que evoluíram, que saíram muito mais jogadores do que quando entraram e que isso lhes sirva para a vida, de preferência ligada ao ténis, uns sendo profissionais, outros treinadores. O objetivo aqui é sejam profissionais, mesmo sabendo que não será uma realidade para todos. Os resultados têm sido distintos daquilo que foi a história do CAR. Temos atingido resultados nos juniores, no circuito ATP, nos challenger, ou seja, nota-se que há evolução e praticamente os atletas que estão cá são os melhores das idades deles em Portugal. O nosso foco não é tanto ao nível nacional, mas internacional e aí os resultados têm sido relevantes. Queremos sempre mais.

SM – O ténis sempre foi considerado uma modalidade elitista precisamente pelas viagens necessárias para jogar no estrangeiro, dada a falta de torneios em Portugal. A FPT fez a aposta na organização de torneios. Pode falar um pouco sobre isso e se já se sentem repercussões dessa aposta?

RM – Além dos torneios ITF e challenger, aumentámos o número de torneios juvenis, neste momento temos sete ITF juniores, temos mais um ou dois torneios de sub-16 e fizemos, em conjunto com a Câmara Municipal da Maia, uma candidatura para subir o nível do torneio de sub-14, o Maia Jovem, para o mais elevado, equiparado ao Le Petit As, a supercategoria. Já estamos a colher alguns frutos, mas é algo que se vai colher mais a médio e longo prazo. A redução de custos pelos jogadores poderem jogar torneios cá é brutal. Com mais torneios cá, ajudamos muitos mais atletas indiretamente. A outra intenção era trazer o nível competitivo a Portugal e assim beber da experiência de outros treinadores, de outros jogadores. Uma terceira mais-valia, prende-se com a perspetiva de os treinadores portugueses estarem muito mais presentes na competição, porque é mais fácil gerir uma saída a 300 km de casa do que passar semanas fora. A existência de torneios em Portugal também tem influência nos mais novos que ainda não jogam, porque lhes dá perspetiva de futuro e motiva para verem ténis como carreira.

SM – Como vê a discrepância entre o ténis masculinos e o feminino em Portugal?

RM –  No feminino, estamos a passar uma fase um pouco complicada, tivemos muitas jogadoras que se retiraram precocemente e só agora começamos a levantar a cabeça, mas o número de jogadores com pontos ATP é mais do dobro do que existia. Não quer dizer que todos vão ser profissionais, mas a experiência no futuro vai ser importante para quando forem treinadores, passarem a ter um nível de conhecimento diferente do que é o circuito. Voltando ao feminino, temos um grupos de mais novinhas, estamos a caminhar no sentido certo, mas de forma muito lenta. No desporto em geral, parece-me que há mais mulheres a praticar, mas não numa perspetiva tão profissional. O ténis está bem de saúde no que toca ao número de praticantes. Temos um bom ratio, a grande diferença é muito na mentalidade quanto a um possível profissionalismo.

SM – No plano de trabalhos da FPT, o que tem sido feito para contrariar essa realidade e chegar à tão pretendida base da pirâmide?

RM – Em 2020, começamos com um projeto que é o Touring teams que vai dos sub-12, sub-14 aos sub-16. Escolhemos seis atletas por idade e por escalão em masculinos e femininos e a FPT patrocina o calendário a competições internacionais. Não é o calendário completo, mas é complementar e bastante bom, são bastantes torneios lá fora e são conjugados com os que organizamos em Portugal. Depende dos escalões, mas são entre 12 a 14 torneios por ano. Claro que estes dois últimos anos foram muito atípicos, porque houve muitos cancelamentos devido à pandemia, mas a ideia é que saiam para quase dez torneios primeiro semestre do ano, no segundo já há mais campeonatos nacionais e menos saídas. É um projeto novo que vai dar frutos e trazer competitividade no futuro. A FPT vai pagar a quem tem mais mérito, independentemente da condição financeira de cada família. Em abril começámos a lançar centros de desenvolvimento nacional. O projeto contempla quatro polos – Algarve, Porto, Lisboa e Centro do País – para atletas dos 11 aos 16 anos. Uma vez por semana, vão reunir os melhores atletas por escalão etário e, através de uma ligação forte com os clubes, ajudar a desenvolver os melhores. Serão de quatro a seis por escalão e zona, logo terá uma abrangência dos 24 melhores do País, fazendo com que estejamos mais próximos dos clubes, ajudando-os a trabalhar melhor.

RUI MACHADO, é um dos seis tenistas portugueses a ter figurado no top-100 do ranking mundial masculino. Durante a sua carreira no circuito, conquistou oito troféus na variante de singulares no nível challenger, a segunda categoria, e 18 em torneios future. O algarvio foi 59.º na hierarquia ATP, sendo o terceiro português com melhor cotação, atrás de João Sousa (28.º) e Gastão Elias (57.º). Em 2016, pouco depois de colocar um ponto final na carreira, Rui Machado, agora com 38 anos, assumiu funções de coordenador técnico nacional do Centro de Alto Rendimento de ténis, cargo que, em 2018, passou a acumular com o de selecionador nacional masculino da Taça Davis, a mais importante competição masculina por equipas.

Foto: Federação Portuguesa de Ténis

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