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Treinador na Áustria e Alemanha, português Pedro Alvarez explica carreira no estrangeiro: “Foi a qualidade de vida desportiva…”Exclusivo 

Foto: HTV Hemer

Há oito temporadas a treinar longe de Portugal, Pedro Alvarez consegue unir a visão pessoal, afinal é português dos mais orgulhosos do seu país, com um olhar profissional de quem enxerga o andebol nacional de ângulo diferenciado. Aos 49 anos, o treinador natural de Lisboa vai para a sua terceira época na Alemanha, a primeira à frente do OHV Aurich, equipa 2.ª Divisão da Handball-Bundesliga.

Regressou a Portugal esta semana como convidado para ser um dos preletores de peso o 19.º Congresso Técnico Científico de Andebol, que decorreu no último fim de semana em Gondomar. Durante a passagem por Portugal, o antigo treinador do Belenenses conversou com a SportMagazine sobre alguns temas que permeiam a sua carreira.

Primeiramente, o treinador, que acumula o título da Bundesliga {segunda divisão austríaca] e que foi campeão nacional em sub-18 com o HIB Handball Graz, mostra-se satisfeito com o caminho trilhado nos últimos anos pelo andebol português.

“À parte da questão afetiva disso, porque como estrangeiro ver as conquistas de fora orgulha-me. É difícil explicar a quem está aqui o que é ver o país de fora a crescer, é um motivo mesmo de orgulho. Mas isso é um processo longo. Não foi de um momento para outro. Foi um processo que envolveu muitas pessoas, algumas delas nem existem mais, já faleceram. Dedicaram-se claramente ao andebol, a nível da formação, do desenvolvimento, a todos os níveis, não só dos jogadores, treinadores e dirigentes. E Portugal teve a capacidade de não parar, de continuar. Depois, isso permitiu que novas gerações de jogadores e treinadores, mais preparados e melhor preparados, pudessem facilitar o processo. Hoje em dia, temos essa possibilidade de ver que a evolução é global, não é apenas uma equipa. É a Seleção, são equipas, são as seleções jovens, é um congresso que é referência em termos de Europa e esse é o processo. Mas há que entender que isso não basta”, afirmou Pedro Alvarez.

A trabalhar numa das principais ligas da Europa, o treinador português EHF Master Coach e Grau 4 tem consigo a ideia de que Portugal pode ir além. Para isso, argumenta que é necessário que haja maior nivelamento dentro das competições nacionais, o que levaria a maior intensidade de todos os jogos e a evolução dos atletas e todos os envolvidos.

“O que fazer? Primeiro, continuar a fazer este trabalho. Porque ao longo deste processo, alguns vão desistir ou ter problemas, e é nesta altura que tu passas os outros à frente porque tu continuas. Isto não é fácil, não é fácil dar esse salto. E neste momento estamos juntamente com um grupo de seleções, Hungria, Eslovénia, que nunca ganharam, mas estão lá sempre. Estão lá sempre. Vou lhe dar um exemplo: o Brasil está lá sempre. E isso é uma influência. Ao contrário de seleções como os Estados Unidos que pontualmente vão lá. Portanto, em seleções como o Brasil e Argentina verificaram-se grandes evoluções, já conseguem competir. Não porque têm ligas fortes internas, mas porque os jogadores estão a trabalhar e a jogar contra as equipas mais fortes e os melhores jogadores”, começou por dizer.

“Concretamente, o porque a Liga Alemã é mais forte? Porque todas as semanas, o jogo é forte e é intenso. O primeiro colocado, se jogar com o último, tem que se preparar porque se não perde. Isso é uma cultura que está instituída que os jogadores se preparam mais fortemente, têm mais ambição, também querem mostrar e querem subir e sabem que é possível. Aqui [em Portugal] há um desequilíbrio ainda grande entre um grupo de três equipas comparativamente aos outros. O que tem que se fazer é apostar num nível médio. Por isso, uma das questões que aponto é o número de equipas: com mais equipas tens mais jogadores, com menos vais ter menos. E de preferência menos jogadores portugueses porque muitas equipas estão a investir em jogadores estrangeiros e alguns até de qualidade duvidosa. O que acontece, se tiveres mais equipas tens mais jogadores e com o nível médio melhor. Quando o nível médio vai melhorando, vais chegando aos outros”, explicou Pedro Alvarez.

Numa detalhada explicação, o treinador conclui a apontar que as principais equipas do país têm evoluído – e isso para ele é positivo. Entretanto, ressalta que o ideal para essas equipas é que elas pudessem ter mais desafios de alta intensidade de maneira mais regular e não quando jogam entre si ou estão nas competições internacionais.

“O FC Porto, o Benfica e o Sporting não jogam a mesma coisa do que quando eu saí do país há oito anos. Jogam muito mais. Deram um salto qualitativo. E quem está de foram percebe isso melhor. O que acontece? Melhores treinadores, nacionais e estrangeiros, melhores jogadores nacionais e estrangeiros, acesso às melhores ligas. É suficiente? Não é. Porque só pontualmente é que vão jogar essas competições internacionais. Enquanto a Liga Francesa e na Liga Alemã todas as semanas se joga de uma forma intensa, numa intensidade enorme. E, por isso, lá o andebol é também visto como um espetáculo: tem que se jogar bem, rápido, forte. Essa é a evolução necessária. Sabemos aqui que os três principais clubes, muitas vezes em alguns jogos vão quase com a perspetiva de jogar e ganhar e ninguém se lesionar porque a oposição vai ser fraca. Isso não é só aqui, acontece em Espanha também, é crónico, onde o Barcelona está a ganhar há muitos anos”, complementou.

Pedro Alvarez treinou a equipa austríaca do HIB Handball Graz.
Foto: HIB Handball Graz

Fluente em alemão, Pedro Alvarez está totalmente habituado ao estrangeiro. Na Áustria esteve entre 2015 e 2019 no HIB Handball Graz. Em seguida, no mesmo país, defendeu o HC Bruck (2019 a 2020). Transferiu-se na sequência para a Alemanha, onde trabalhou no HTV Hemer (2020 a 2022) e agora se prepara para iniciar o trabalho no OHV Aurich. Formador de treinadores ligado à Federação Alemã, o português afirmou que, para já, não tem pretensão de regressar ao país.

“Claramente esse foi o meu objetivo [fazer a carreira fora], assim que eu tive hipótese eu saí. Porque eu sabia que na altura eu teria poucas oportunidades. Teria a oportunidade lá em baixo [referindo-se à região de Lisboa] de treinar dois clubes, vá lá. Isso tu ganhas e renovas ou se não ganhar tens um contrato de dois anos e depois a seguir voltas a seguir a clubes de dimensão menor. Para quem gosta da modalidade, que vive aquilo 24 horas por dia… A minha vida é andebol de manhã até a noite, com entrevistas, com planeamento, com treino, com discussão com treinadores, vídeos, viagens, estudos. A minha decisão foi precisamente esta: a qualidade de vida andebolistíca comparada com a possibilidade de um título. Ganhei na Áustria [campeã júnior e ganhou a Bundesliga, 2.º divisão] e na Alemanha não foi possível. … Foi uma opção de carreira, de vida”, explicou.

“Prefiro ter um contrato de 10, 20 anos, do que vir para Portugal e ganhar igual ou um pouco mais se calhar durante dois ou três anos. A decisão foi claramente a qualidade de vida desportiva, de estar lá e fazer parte daquela festa. Normalmente, nem divulgo o que sinto porque não me sinto confortável porque sei que aqui é difícil perceber”, acrescentou.

Outro ponto relevante apontado pelo treinador foi o aprendizado com a forma como lidar com as demais culturas. Durante o Congresso, em Gondomar, falou de uma passagem em que chegou a conclusão que deveria permitir que os atletas alemães bebessem cerveja no balneário por fazer parte do hábito do país. “Em cada país temos que respeitar a cultura local”, disse.

“Temos que abrir a cabeça. Perceber que eu não sou o centro do mundo, mas eu estou no mundo. Aonde quer que eu vá, eu tenho que me adaptar, perceber qual é a realidade local. Perceber como as coisas funcionam e adaptar-me. Nunca podemos nos esquecer de uma coisa muito importante: eu fui contratado por alguém para fazer o que esse alguém quer, não o que eu quero ou me apetece. Esse é um grande erro dos treinadores. Muitas vezes acham que vão fazer o que querem. Não, não. Eu fui contratado para fazer algo que alguém quer, por isso me pagou. Agora, o resto é nunca misturar vida pessoal com a vida privada. Eu isso não me meto na vida privada dos jogadores”, garantiu.

“As opções sejam elas quais forem. Respeito, respeito tudo. Quero que sejam felizes, mas não quero que a vida privada ou pessoal interfira no treino. E aí temos que acompanhar, às vezes, sim, conciliar quando necessário. Desde coisas íntimas do casal, ou por exemplo aconselhar um jogador a investir dinheiro. São coisas que eles necessitam de saber. De resto, é como eu disse: abrir e cabeça. Eu tive que aprender que a cerveja no final do treino no balneário é um costume, eles estão habituados nisso. A mesma coisa é ir ao Brasil. Eu tomo o chimarrão [bebida típica do sul brasileiro], eu me adaptei e sei que aquilo passa de uns para outros. Não sou eu que vou dizer: ‘não, não, faz só um para mim’. Sou eu que vou me adaptar às regras. Aos poucos, vamos seduzindo os outros com as nossas ideias, levá-los a fazer o que queremos. Não nos impor. No final, vão todos connosco com a ideia que temos”, concluiu.

Pedro Alvarez é formado em Educação Física pela Universidade Lusófona, em Lisboa, e mestre em Treino de Alto Rendimento, na Universidade Autónoma de Madrid.

Foto: IKZ, Michael May/HTV Hemer

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