4 de Fevereiro 2023 05:52
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Mariana Lopes passa a limpo a carreira e fala sobre os anos no andebol sueco e alemão e a lesão no joelho: “Não gosto de falhar…”Exclusivo 

Foto: TSV Bayer Leverkusen/Facebook

Mariana Lopes, atleta de 27 anos, nascida em Aveiro, é jogadora de andebol pelo Bayer Leverkusen, da Alemanha, e pela Seleção Nacional de Andebol Feminino. A atleta jogou pelo Alavarium, clube de Aveiro, deste a formação à equipa sénior (dos 10 aos 21 anos), onde foi campeã nacional por três vezes consecutivas (2012/13; 2013/14 e 2014/15).

No entanto, em 2016, Mariana teve a oportunidade de sair do país e tornar-se 100% profissional na modalidade que pratica, partindo para a Suécia para representar o Boden Handeboll durante duas épocas. Nestes últimos anos, a atleta portuguesa tem jogado na Alemanha, indo para a sua quinta época no país e para a terceira época ao serviço do TSV Bayer Leverkusen, após jogar pelo Union Halle-Neustadt (2018/19) e pelo Thuringer HC (2019/20).

Mariana Lopes conversou então com a SportMagazine acerca da sua carreira, das divergências entre aquele que é o andebol português e o andebol com que se deparou na Suécia e na Alemanha e sobre os seus objetivos futuros, a curto e a longo prazo, na modalidade.

Mariana Lopes no TSV Bayer Leverkusen. Foto: TSV Bayer Leverkusen/Facebook

SportMagazine (SM) – Começaste por jogar no Alavarium por volta dos 10 anos. Porquê o andebol e como surgiu todo o amor pela modalidade?

Mariana Lopes (ML) – Bem, isso foi um bocado um acaso, escolher o andebol, porque eu fazia parte da equipa de natação do Beira-Mar e depois dos Galitos, em Aveiro, e já estava a fazer competição. Já estava na fase de decidir se entrava na fase mais séria da natação e comecei a perceber que não era bem aquilo que eu procurava. Deixei a natação e andei à procura de outro desporto. O Carlos Neiva era treinador, na altura, do Alavarium, das equipas de formação, das iniciadas, porque eu era infantil, mas a minha geração não havia no Alavarium, que era um clube muito pequeno ainda, não tinha gente suficiente da minha idade. Ele perguntou ao meu pai se eu gostava de ir experimentar um treino e eu fui. Fui sábado de manhã treinar com as iniciadas a pensar que era voleibol. Estava à espera da rede no meio do campo e não foi, mas gostei imediatamente do desporto e fiquei. Foi amor à primeira vista.

SM – Em 2016 foste para a Suécia e depois para Alemanha. O que é que te fez, enquanto atleta, ter esta decisão de sair do país e ter um desafio internacional?

ML Bem, eu comecei a perceber que o andebol podia ser algo mais sério e profissional quando comecei a integrar a seleção jovem, com 15 e 16 anos. Fomos a dois Europeus e dois Mundiais, e à medida que fomos crescendo e fazendo essas competições, fui tendo a atenção de alguns treinadores e quando fizemos o último Europeu, penso eu, a treinadora adjunta da equipa da Noruega, contra quem jogámos, falou comigo e disse que queria contratar-me para a equipa dela na Noruega, que era o Molde, e eu fazia júnior e sénior. Eu fui lá, fiz três ou quatro dias de treinos, foi uma experiência incrível. Mas foi mesmo nessa altura que eu tinha acabado de entrar na universidade em Fisioterapia, em Aveiro, e tive de tomar uma decisão – se ingressava na universidade e ficava mais um tempo a jogar no Alavarium e em Portugal ou se ingressava já nesse mundo profissional do andebol. Acabei por decidir ficar na universidade e fazer um pouco dos dois. A partir daí, o objetivo era o mais claro possível: terminar a universidade o mais rápido possível, fiz os quatro anos do curso como tinham de ser feitos, e preparar-me ao máximo para sair para o estrangeiro. E quando estava já à procura de agentes e de clubes, o Boden, da Suécia, pareceu-me a melhor opção e foi um passo difícil, mas muito interessante, o que me fez crescer muito.

SM – Virando para uma perspetiva mais geral em relação ao andebol feminino. Que diferenças encontras no andebol alemão, ou até o sueco, para o português?

ML – A maior diferença é a capacidade física, sem dúvida. E isso nós vemos na nossa formação das seleções, conseguimos grandes resultados com grandes seleções, e depois quando passa aquele período de adolescência e que a capacidade física tem de ser treinada, os restantes países treinam muito bem essa capacidade física e força e nós portugueses começamos a ficar para trás. Então o campeonato sueco é muito rápido, muita qualidade individual, e o campeonato alemão é muito físico, muito força bruta, e é mais por aí. Acho que o andebol português tem muita qualidade, criatividade e inovação, mas falta essa outra parte física.

SM – Sentes que nesse aspeto da profissionalização, se tivesses ficado em Portugal, conseguirias ser profissional, fazer só andebol? Se não, o que achas que ainda há a fazer em Portugal para que isso aconteça?

ML – Eu felizmente sou profissional de andebol já há sete anos – duas épocas na Suécia e agora a quinta na Alemanha. Só a jogar andebol e a conseguir viver e sobreviver, não tenho a necessidade de ter outro trabalho. Isso era completamente impossível em Portugal, era completamente impossível conseguir pagar as minhas contar só a jogar andebol. Agora as coisas já estão a evoluir, a Primeira Divisão portuguesa já tem algumas condições interessantes, alguns clubes a pagar algum dinheiro, a dar condições com casas, com universidades, esse tipo de ajudas. E hoje em dia já é possível para algumas atletas em alguns clubes. Mas não é o nível que eu procuro e com o qual preciso de evoluir neste momento.

Mas, em Portugal, acho que os passos estão a ser dados. Agora a ajuda do Benfica fez uma grande diferença, está a trazer este profissionalismo, mesmo que a equipa feminina não tenha as pessoas com mais experiência por detrás da equipa feminina em si, têm toda a estrutura do futebol e do andebol masculino. A equipa do Benfica tem todas as condições de saúde, de pavilhão, de tudo e mais alguma coisa, já na estrutura. E isso já dá a conhecer às atletas que existe esse lado, o lado em que não é preciso treinar num pavilhão em que não chove lá dentro, que só tem água fria, que são a realidade e que foram minha realidade no Alavarium durante muito tempo.

Por isso, esse passo está a começar a ser dado, agora também acho que em Portugal continuamos a ter a ideia de que somos sempre inferiores a toda a gente e eu acho que neste momento que em Portugal já existe melhores condições em muitos clubes do que em certos clubes, por exemplo, na Alemanha. Na Alemanha, em certos aspetos, Portugal está melhor. Por exemplo, o Alavarium tinha dirigentes, ou tem, em todos os treinos, trazem bolas, águas, têm fisioterapeuta em todos os treinos. Na Alemanha isso não acontece.

Há certas coisas em Portugal que já funcionam de maneira mais profissional que na Alemanha e essas coisas não são valorizadas. Eu tenho de dizer às atletas com quem tenho contacto e até mesmo na Seleção, que esta ideia de que o desporto profissional tem de ser como no futebol, que os jogadores só têm que vir e marcar golos, não é real. E que as jogadoras portuguesas têm que valorizar mais o que os clubes estão a fazer e o que está a faltar mais agora é um investimento maior. Maior parte dos clubes estão a fazer grandes esforços com as condições que têm.

SM – Na Alemanha, para além da Mariana, está o Gonçalo Miranda, o teu marido, que é o treinador português mais jovem a ser treinador principal na Alemanha. De que forma é que falam os dois acerca destas diferenças? Como é que lidaram com elas?

ML – O Gonçalo já veio comigo para a Suécia. Ele já fez o seu percurso lá e agora aqui na Alemanha e nós sempre partilhámos um bocadinho o mesmo choque de realidade. Mas ao mesmo tempo ele, como conheceu o lado masculino em Portugal, porque trabalhou no Vigorosa e depois no FC Porto, ele conheceu o lado mais profissional, mais desenvolvido, com muito boa qualidade de treino. O desporto masculino em Portugal tem muito bons treinadores. Infelizmente, no feminino, costuma-se dizer “quem não quer trabalhar no masculino vai trabalhar para o feminino”, e ainda acontece muito no feminino haver treinadores que não têm formação na área sem ser o curso de treinador, claro. E no masculino isso não acontece tanto, os treinadores são estudantes de desporto, são mestres de andebol, são pessoas que realmente estudam e querem avançar e o Gonçalo veio muito desse meio.

Depois, quando foi para a Suécia, foi um bocadinho ao contrário. Eu tive o impacto de vir para um meio em que o andebol é visto como mais profissional e trabalhado ao detalhe e tudo mais. Ele veio ao contrário, ele veio de um meio onde o andebol é estudado ao detalhe na universidade para “o treinador é o meu pai que vem aqui ao fim de semana ajudar”. Então, foi engraçado ter esses dois lados e perceber as diferenças. É sempre difícil vir de fora e tentar mostrar uma perspetiva diferente e quanto é que se pode ajudar ou não, por isso é sempre difícil.

Gonçalo Miranda, treinador português que atua no VfL Gummersbach. Foto: VfL Gummersbach

SM – Voltando atrás, à tua carreira, jogaste no Alavarium, foste campeã três vezes pelo clube. Pergunto se tencionas regressar a Portugal e voltar a jogar no Alavarium ou noutro clube?

ML – Isso é uma piada que eu digo muitas vezes, que eu vou voltar a Portugal para jogar a Liga dos Campeões por uma equipa portuguesa. E era incrível que fosse com o Alavarium, porque em Portugal eu fiz o meu percurso todo com o Alavarium, fiz 11 anos. E foi muito satisfatório, porque foi um clube que começou minúsculo e tem agora 20 e poucos anos. Foi muito satisfatório subir com o clube e chegar a campeã. Mas o Alavarium, infelizmente, ainda não tem as condições para conseguir jogar ao alto nível. Eu espero acabar a minha carreira só daqui a uns sete anos, dez talvez, quero chegar até aos quarenta. Quer dizer, não sei, depende de como o corpo aguentar, mas era muito interessante voltar a Portugal e fazer um ano de despedida. Mas acho difícil, o objetivo é eu conseguir jogar ao mais alto nível até conseguir e o Gonçalo ajudar-me e ganhar mais experiência possível, sempre comigo. Depois, quando eu acabar a minha carreira de jogadora, que é finita, comparada com a de treinador, vou eu segui-lo para onde o melhor caminho para ele for. Portanto, se ele for treinador de um FC Porto, de um Sporting, de um Benfica, em Portugal, acho que sim, era interessante voltar a Portugal e fazer um ano de jogar por diversão ou a Liga dos Campeões, gostava muito.

SM – Disseste precisamente que jogavas até o corpo aguentar. Pergunto como está a ser a recuperação da tua lesão mais recente?

ML – Eu fiz a rotura do cruzado o ano passado e foi a lesão e a recuperação mais difícil da minha vida. Aliás, eu nunca tinha tido nenhuma lesão grave, nunca tinha parado mais de duas a três semanas, portanto essa foi a parte mais difícil e a minha família sempre disse que eu fico impossível quando não treino. Impossível de aturar, tenho demasiada energia, não consigo, preciso de deitar a energia fora e sem treinar estava difícil. Foi um ano de muito trabalho, fez agora um ano da cirurgia no final de setembro, e acho que a partir do momento em que me foquei a 100% na recuperação e entendi que não havia nada que pudesse fazer, era cirurgia e treinar, treinar, treinar até estar pronta, esse foco foi muito claro e esse período de ginásio e fisioterapia, foi duro fisicamente, mas mentalmente eu estava focada e foi sempre em frente.

A parte de voltar a jogar e voltar à equipa e à minha realidade, tem sido um pouco mais difícil pela parte de eu não conseguir controlar todos os fatores. Porque quando eu estava na fisioterapia, na fase da reabilitação, na minha ‘bolha fechada’, estávamos a controlar todos os fatores e o meu joelho está incrível, não tenho dores, não tenho problemas nenhuns, foi uma reabilitação notável. O que está a ser mais difícil é todo o resto do andebol voltar a ter os timings a ter os feelings, porque o andebol é muito instinto, decidir bem no momento certo com a velocidade certa. E voltar a ter isso está a ser muito difícil para mim, porque eu não gosto de errar, não gosto de falhar. E este período de adaptação está agora a voltar ao meu normal, mas ainda não sinto que estou a 100% como estava antes. As pessoas à minha volta dizem que sim, que parece bem, que está com bom aspeto, mas eu ainda não sinto que controle o meu corpo a 100%, que salte da maneira que quero. Acho que essa parte mental e de coordenação cabeça-corpo ainda está um bocadinho atrasada, mas faz parte. Há pessoas que dizem que pode levar até dois anos a voltar a sentir como antes, por isso é continuar a trabalhar e esperar que seja rápido.

SM – Sendo internacional pela Seleção Nacional e jogadora do Bayer Leverkusen, quais são os teus objetivos daqui para a frente?

ML – Bem, o meu objetivo bastante claro sempre foi um dia jogar a Liga dos Campeões. Esse é o meu objetivo de miúda que tem de se tirar da lista. Com a Seleção Nacional acredito cada vez mais que vamos chegar a uma fase final de um Europeu ou de um Mundial, portanto esse é um grande sonho que estamos a trabalhar bastante para conseguir e espero continuar a fazer parte e conquistar uma ida a um Europeu ou Mundial pela Seleção.  A curto prazo, queremos alcançar a final four da Taça da Alemanha e isso já nos dava entrada direta para as competições europeias, portanto isso seria um dos grandes objetivos para esta época.

Mariana Lopes na Seleção Nacional. Foto: Federação de Andebol de Portugal/Facebook

 

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