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Treino de competências de vida aplicado ao treinador e ao treino desportivoExclusivo 

Rui Resende
CIEQV – Centro de Investigação em Qualidade de Vida, Universidade da Maia, Portugal

A. Rui Gomes
Centro de Investigação em Psicologia, Escola de Psicologia, Universidade do Minho, Portugal

O treino desportivo constitui uma excelente oportunidade para fazer florescer as crianças e os jovens em todo o seu potencial. Aceita-se de bom grado que o desporto promove competências e valores nos seus intervenientes, como a resiliência, a superação, a autoestima ou o respeito pelos outros. Todavia não é evidente que estes efeitos positivos ocorram de forma automática. É necessária uma intervenção adequada e fomentadora da aquisição de ‘bons’ valores. Neste sentido, os adultos que supervisionam os programas desportivos são cruciais e, entre estes, os treinadores surgem, definitivamente, como os mais importantes.

Nestas linhas pretendemos expor de forma breve o que entendemos por competências de vida e de que modo podem ser aplicadas ao trabalho do treinador.

Treino de Competências de Vida e Papel do Treinador
Podemos considerar as competências de vida “como as ferramentas que apetrecham os indivíduos para enfrentarem e fazerem face às contingências de vida” (Resende & Gomes, 2020, p. 54), mais especificamente, entendemos como competências de vida o conjunto de habilidades humanas que podem ser estimuladas através do treino sistematizado ou por experiências não sistematizadas de vida, e que potenciam a capacidade de adaptação humana a eventos de mudança (Gomes & Resende, 2020). Em consequência, as competências humanas podem ir para além das físicas, motoras, técnicas ou táticas dos atletas. A necessidade de desenvolver os jovens valorizando as suas capacidades justifica a emergência do treino destas competências, realçando-se que as competências de vida resultam das aptidões que cada um possui para fazer face aos desafios cotidianos.

Como estas competências constituem recursos que podem ser treinados, o desporto constitui um excelente campo para otimizar este desenvolvimento. Em consequência, o papel do treinador na liderança deste processo será de estimular de forma sistemática e implicitamente através de exercícios de treino as oportunidades adequadas para que ocorra a aquisição das competências de vida. De forma a operacionalizar estas aprendizagens deve incorporar na sua filosofia de treino, princípios e crenças que guiam a sua atuação (Resende, 2018), o conjunto de pressupostos que desencadeie o desenvolvimento de competências de vida. E de que modo isto pode ocorrer? Gomes e Resende (2015) propõem dez princípios que deverão orientar a atuação dos treinadores e que poderão promover uma liderança mais eficaz do processo de treino assim como potenciar e incrementar a aquisição de competências de vida.

Treino de Competências de Vida
através do Desporto Um primeiro aspeto a considerar no treino de competências de vida, é o modo como estas são adquiridas pelas pessoas. Neste caso, é importante determinar as quatro fases de aprendizagem das competências de vida.

• Motivação: compreensão das vantagens de incorporar as competências de vida no repertório cognitivo e comportamental;
• Aprendizagem: aprendizagem sobre o modo como funcionam as competências de vida;
• Automatização: incorporação da competência de vida numa dada área do funcionamento da pessoa;
• Transferência: incorporação da competência de vida noutros contextos existenciais da pessoa, além do efetuado na fase anterior.

Um segundo aspeto a considerar no treino de competências de vida, é o modo como deve ser efetuado este treino ao longo das fases da aprendizagem das competências de vida. Neste caso, o treinador dispõe de três princípios a seguir.
• Princípio da integralidade: o treino deve estimular diferentes tipos de funcionamento humano (intelectual, cognitivo, emocional, motor e físico) e distintos níveis de funcionamento humano (desde o pessoal até ao interpessoal);
• Princípio da graduação: o treino deve respeitar as etapas de aprendizagem (motivação, aprendizagem, automatização e transferência);
• Princípio da individualização: o treino deve adequar-se ao nível de desenvolvimento e capacidade de cada pessoa.

Treino de Competências de Vida
através do Desporto: Um Exemplo Por último, importa analisar, na prática, como se pode integrar o treino desportivo com o treino de competências de vida. A Figura 1 apresenta um exercício da ação de ataque na modalidade de voleibol e o modo como este treino pode ser integrado na estimulação de competências de vida. Um exercício deste género, quando respeita os princípios do treino de competências de vida, pode ser muito útil para os praticantes beneficiarem do treino desportivo, mas também compreenderem como a competência de vida de motivação (baseada na progressão pessoal) pode estimular a aprendizagem da competência motora (durante a execução técnica do gesto de remate), mas também pode ser exponenciada noutras áreas de vida.

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