15 de Abril 2024 20:47
Segue-nos

O que procura?

SportMagazineSportMagazine
0

Desporto Jovem

Professor Fernando Santos e o Desporto Jovem: “A zombificação das crianças e jovens, no e através no desporto, deve ser evitada a todo o custo”

Foto: Fernando Santos

Os jovens cada vez mais têm sido incluídos numa área de estudo dentro do panorama desportivo. Fernando Santos, professor adjunto da Escola Superior de Educação Politécnico do Porto, e assistente convidado no Politécnico de Viana do Castelo, conversou com a SportMagazine precisamente sobre os jovens no desporto. O professor tem desenvolvido, desde 2016, uma investigação nas áreas de formação de treinadores e desenvolvimento positivo dos jovens através do desporto.

SportMagazine (SM) – O professor Fernando Santos tem sido um dos principais investigadores centrados no treino de jovens atletas em vários pontos do globo. Na sua perspetiva, de que forma é que o treino desportivo pode influenciar o desenvolvimento físico e mental de um jovem atleta?

Professor Fernando Santos (FS) – O desporto pode e deve ter um contributo para o desenvolvimento integral dos/as atletas, especificamente de crianças e jovens. Devemos repensar, significativamente, o perfil de competências e os resultados de aprendizagem decorrentes do sistema desportivo. Será que pretendemos desenvolver atletas capazes de refletir criticamente, interessados pela justiça social, competentes do ponto de vista motor, social, emocional e pessoal, com índices de saúde mental e bem-estar adequados? ou será que a procura de resultados a todo o custo está a dominar as preocupações associadas ao sistema desportivo com efeitos nefastos no desenvolvimento dos atletas? A investigação parece-nos indicar que a obtenção de resultados a todo o custo tem levado ao aumento do número de episódios de violência no desporto e contribuído para o papel neutro do mesmo. A responsabilidade por esta conjuntura é do sistema desportivo, mas também dos decisores e da investigação que, em certos casos, tem sido insuficiente e pouco impactante. Temos que assumir um papel relevante na utilização da investigação para a mudança do sistema desportivo.

SM – Na sua visão, e tendo por base o seu trabalho de investigação. O que deve ser garantido durante o treino desportivo de forma a assegurar o desenvolvimento desportivo dos atletas?

FS – Deve-se desenvolver esforços com o intuito de ensinar competências, para além das desportivas, que possam ser úteis em outros domínios da vida. Especificamente, as abordagens pedagógicas, habitualmente, usadas devem ser repensadas. Não podemos esperar aprendizagens significativas com processos pedagógicos que não acompanham as necessidades de crianças e jovens na sociedade atual. A título de exemplo, a liderança pode ser desenvolvida, de forma deliberada, para que os jovens possam estar preparados para aplicar esta competência no desporto, na escola, e em muitos outros contextos. Para além disso, esta competência pode ser ensinada, no sentido de facilitar a promoção da justiça social. Devemos abdicar, urgentemente, de ter crianças e jovens obedientes, incapazes de tomar decisões, liderar, refletir criticamente, assim como serem criativas e autónomas.

A zombificação das crianças e jovens, no e através do desporto, deve ser evitada a todo o custo.
Contudo, em alguns casos, ainda estamos distantes desta realidade. Aliás, o desporto, em certos casos, é um contexto inseguro do ponto de vista físico e psicológico em que se verificam estereótipos de género e discriminação.

Esta realidade tem impacto na saúde mental dos atletas e na qualidade das experiências de crianças e jovens.

SM – No seu livro “Coaching Positive Development”, o professor Fernando Santos, juntamente com os restantes autores, reflete sobre as práticas que estão a ser aplicadas em vários países. Na sua perspetiva, que países se destacam na salvaguarda do desenvolvimento dos seus atletas e que medidas se destacam?

FS – Diversos países como é o caso do Canadá, Austrália, Estados Unidos da América e Brasil, parceiros nas iniciativas que temos promovido, têm desenvolvido intervenções com impactos positivos nos treinadores/as, clubes desportivos, atletas, pais, decisores políticos e dirigentes.

SM – O Governo português tem vindo a apostar no apoio à saúde mental dos atletas e no papel que os treinadores têm neste contexto. Que medidas devem ser adotadas em Portugal de forma a assegurar o desenvolvimento positivo dos jovens atletas através do treino? O que falta fazer no contexto desportivo nacional?

Qual o papel que os treinadores, clubes e federações devem desempenhar na garantia desse desenvolvimento?

O que falta fazer no desporto nacional para garantir um desenvolvimento positivo dos atletas mais jovens? 

Os contributos aqui apresentados sustentam-se no trabalho de investigação e intervenção realizado desde 2015, subordinado ao tema ‘Formação de Agentes Desportivos e Desenvolvimento Positivo dos Jovens através do Desporto: Teoria, Investigação e Prática’, que visa identificar estratégias de remediação que possam atenuar e, preferencialmente, eliminar comportamentos violentos, discriminatórios e de abuso na prática desportiva, mas também promover competências e oportunidades de aprendizagem para que os agentes desportivos possam utilizar o valor educativo do desporto.

Mediante o exposto e o levantamento de necessidades realizado sugere-se considerar o seguinte:

  1. Que a tutela monitorize, ativamente, a estrutura dos cursos de formação inicial e contínua de treinadores e professores, bem como de outros agentes desportivos, partindo do pressuposto que a violência no desporto e as iniquidades são, também um problema educativo. Este recurso, a educação/formação através e no desporto, é o mais económico e útil à disposição do sistema desportivo e da tutela. Todavia, torna-se necessário legislar a inclusão, na formação inicial e contínua, de temas como a equidade de género, desenvolvimento pessoal e social, ética desportiva, justiça social, saúde mental e práticas inclusivas. Uma oferta formativa centrada nestes temas é essencial para que se possam desenvolver fatores promotores e preventivos que contribuíam para a diminuição de episódios de violência e iniquidades. Deve-se construir um plano de formação contínua alinhado com as premissas da legislação;
  2. O plano de formação contínua citado previamente deve respeitar as necessidades de treinadores e atletas, sendo que, a generalidade das ações não atendem às especificidades destes agentes. Para além disso, deve facilitar-se o acesso de treinadoras aos clubes e aos cursos de formação inicial, sendo que a criação de equipas femininas deve, também, ser valorizada pela tutela. Estes aspetos, mediante o cenário atual, devem ser determinados pela tutela e legislados. Esperar que tal aconteça, sem estímulos extrínsecos, tem-se constatado que é irrealista;
  3. Utilizar critérios distintos para as medidas a adotar no combate à violência nos recintos desportivos em contextos de formação (isto é, crianças e jovens), rendimento, alto rendimento, entre outros (isto é, adultos). As medidas a adotar em contextos de formação, pelo impacto significativo de experiências negativas no desenvolvimento de crianças e jovens e na adesão à prática de atividade física e desportiva, devem ser mais severas. Esta abordagem deve ser aplicada em outros domínios como a discriminação, o racismo, entre outros relevantes;
  4. Em muitos casos, na prática desportiva é colocado ênfase, pelas pressões sociais inerentes, exclusivamente no resultado desportivo e, mais grave, no resultado a todo o custo, sendo que a violência e as iniquidades são normalizadas no sistema desportivo. A investigação sustenta, de forma clara, estas afirmações. Por isso, salienta-se a importância de responsabilizar, efetivamente, as federações desportivas, associações, clubes e instituições de ensino superior pela implementação de práticas e políticas associadas a temas como a equidade de género, desenvolvimento pessoal e social, ética desportiva, justiça social, saúde mental, práticas inclusivas e violência no desporto. Neste sentido, um plano estratégico para a promoção de uma prática desportiva de qualidade (2025-2030) que integre os resultados esperados no trabalho desenvolvido pelas organizações mencionadas acima poderá levar a que o sistema desportivo e a atribuição de financiamento deixem de depender, exclusivamente, da quantidade das ações, mas, essencialmente, da sua qualidade (isto é, impacto efetivo). A título de exemplo, se o objetivo estratégico for diminuir os episódios de violência em uma determinada modalidade desportiva e se este se encontra explicitado na legislação, as organizações desportivas terão de desenvolver processos que permitam alcançar esta meta. Estando o financiamento dependente deste resultado e dos processos que lhes estão inerentes, as organizações desportivas irão alterar o seu modo de funcionamento, especificamente a gestão de prioridades. Neste momento, o financiamento depende, essencialmente, do número de participantes;
  5. Potenciar a investigação como recurso para a mudança e melhoria do sistema desportivo, sendo que se constata que os investigadores também sofrem de pressões sociais e são avaliados por métricas, essencialmente, de resultado. Existem muito poucos investigadores em Portugal que se têm debruçado nas temáticas abordadas por esta comissão.

Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Edição Atual

Artigos que poderá gostar

Desporto Jovem

A Escola Superior de Desporto de Rio Maior (ESDRM), instituição pertencente ao Instituto Politécnico de Santarém, tem a satisfação de informar sobre o êxito...

©2022 - SportMagazine - Revista de Treino Desportivo.
Todos os direitos reservados. Quântica Editora - conteúdos especializados, Lda. Praça da Corujeira, 30 4300-144 Porto, Portugal.
Website desenvolvido por Renato Sousa.