18 de Maio 2022 07:50
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Carlos Paula Cardoso: “Sem heróis, qualquer modalidade perde”Exclusivo 

Carlos Paula Cardoso, presidente da CDP. Foto: Confederação do Desporto Portugal

O reflexo da pandemia, do conflito armado na Ucrânia e do impasse até à tomada de posse do Governo no desporto foram temas lançados pela SportMagazine, a Carlos Paula Cardoso, presidente da Confederação do Desporto de Portugal (CDP). Em resposta, reconheceu que os clubes serão mais afetados do que as federações, lamentou o esquecimento a que o desporto tem sido votado pelo Executivo e lembrou da necessidade de fazer dos atletas influenciadores para os mais jovens.

Abaixo, pode-se conferir uma parte da entrevista publicada originalmente na edição número 1 da nossa revista. Pode-se ler esta entrevista completa e outros conteúdos mais caso seja assinante. Se ainda não é, saiba como fazer para integrar o nosso grupo de leitores e colaborar com o nosso projeto.

SportMagazine (SM) – Com a Guerra da Ucrânia sem fim à vista, quando ainda nem se pode dizer que a pandemia faz parte do passado, que tempos vivem as federações desportivas?

Carlos Paula Cardoso (CPC) – Esperamos, em primeiro lugar, que o que se passa no Leste da Europa não chegue até nós. É uma preocupação humanitária que vai gerar confusão desportiva com a Ucrânia e a Rússia, mas os atletas serão os maiores prejudicados. Por exemplo, o Marcos Freitas, do ténis de mesa, teve problemas por representar um clube russo. A nível do desporto nacional, economicamente vai afetar mais os clubes do que o financiamento às federações, em virtude desse financiamento ser mais proveniente dos jogos sociais, e em tempos de crise, o volume de jogos sobe e não desce. Ainda assim, estamos muito preocupados. Na pandemia, o desporto não foi tão apoiado como pensávamos e gostaríamos que fosse. Foi colocado de lado. Ainda não sabemos muito bem como as pessoas ficaram no pós-pandemia. O desporto pode ser fator importante de abertura. A guerra em nada ajuda, porque estávamos em entrar em recuperação. Esperemos que ao nível do desporto federado em Portugal, não haja uma incidência demasiado grande.

SM – A redução do número de praticantes que tanto se temia em plena pandemia está mais controlada?
CPC – Tínhamos esse receio, comparando com o que tinha acontecido em 2011/12. Nessa altura, quando se falava de cortes brutais em relação ao desporto a rondar dos 25%, em 2013/2014 a prática desportiva foi afetada e os grandes lesados continuam a ser os escalões jovens, porque são mais facilmente ‘abandonados’ pelos clubes. Os de maior dimensão passam a investir menos e, ao nível local, os clubes pequenos, veem limitadas as suas capacidades ou desaparecem mesmo. Paradoxalmente, o que notámos, em plena pandemia, foi que os resultados desportivos em Portugal foram muito superiores. Na outra crise, não tínhamos jovens e os que, na altura, tinham 11 ou 12 anos, começam agora a aparecer, escaparam à curva descendente causada pelos cortes. Para mim, vai acontecer a mesma coisa agora. A pandemia vai fazer com que tenhamos perdido muitos jovens pelo caminho. Alguns vão recuperar, muitos vão aparecer, mas não nas mesmas condições físicas, se não tivesse havido aquele hiato.

SM – Todavia o corte de movimentos foi total devido à Covid-19. Para quando as repercussões disso?
CPC – Essa é uma questão que temos de ter em consideração. É ligeiramente diferente do que aconteceu em 2011/12. Os jovens nem sequer puderam correr nas escolas, as brincadeiras passaram a ser nos corredores de casa. As modalidades estavam lá em cima, as coisas correram melhor do que era normal porque havia uma vontade enorme de voltar ao treino. Ao nível sénior e júnior, a atividade foi sendo recuperada, pelo que a curva se manteve ascendente, mas nos escalões mais abaixo, vamos sofrer nos próximos anos. As autarquias fizeram um trabalho bom, os clubes de base vão começar o seu, mas nestes dois últimos anos perdeu-se a evolução física
natural do ser humano para aquelas idades. Daqui a três ou quatro anos, esta impossibilidade de correr e saltar vai fazer-se sentir.

SM – Ainda assim, como referiu, em termos de resultados desportivos Portugal superou-se. Basta lembrar das três medalhas olímpicas nos Jogos de Tóquio. Concorda?
CPC – O ano foi melhor, mas não pelas medalhas olímpicas. Até sou um pouco crítico em relação a isso. Em 1984, conquistámos três medalhas [n.d.r. Carlos Lopes, ouro maratona, António Leitão, bronze nos 5000 e Rosa Mota, bronze na maratona feminina], agora tivemos quatro. Quer dizer que tivemos mais uma medalha em 40 anos, não é motivo para estarmos a bater palmas. A diferença é que, em 1984, as medalhas foram no atletismo, e agora variámos. O desporto português conseguiu nos primeiros 20 anos do século XXI alargar a sua oferta e dimensão em termos desportivos. Estivemos presentes numa maior quantidade de modalidades, mas essa é a política que os países europeus com a nossa dimensão, como a Hungria ou a República Checa/Chéquia praticam há muitos anos. Têm mais medalhas porque têm mais investimento, apostam. Nos anos 90, metade da nossa delegação olímpica era do atletismo, logo maior a dificuldade em obter medalhas.

SM – Então a que se deveu esta diversificação? O aumento dos atletas naturalizados teve alguma influência?
CPC – Não creio que seja pelos atletas naturalizados, mas porque abrimos perspetivas e percebeu-se que é por ali o caminho. Primeiro foi a canoagem que fez um trabalho fantástico, o judo também alargou os horizontes. O grande avanço do desporto português deve-se à capacidade de alargar o investimento a modalidades que os miúdos queriam experimentar, mas não tinham capacidade para tal. Passei pelo atletismo nos anos 80, fui presidente da federação, e via os miúdos que chegavam. Recordo-me de, em 1978, no Crosse das Amendoeiras, ver ganhar um miúdo que ninguém sabia quem era, mas tratava-se do António Leitão, que viria a ganhar a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos. De ano para ano, havia os irmãos Castro, o Regalo, muitos corredores de fundo que tinham como objetivo fazer o mesmo que o Carlos Lopes, a Rosa Mota ou a Aurora Cunha. Os resultados chamavam muitos miúdos à prática desportiva. Precisamos de heróis. Sem heróis, qualquer modalidade perde.

SM – Em Portugal, os atletas são vistos como heróis?
CPC – Acredito que sim. Temos heróis como a Patrícia Mamona ou o Fernando Pimenta e tantos outros, mas continuam a ser os do futebol a ganhar. Há um trabalho feito pelas federações, mas infelizmente as condições financeiras são insuficientes para áreas tão imediatas como a comunicação. Os meios estão tão dispersos que é mais difícil.

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