13 de Julho 2024 23:13
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Carlos Amado da Silva aborda situação atual do rugby português e do desporto na sua generalidade

Foto. João Tinoco / SM

Carlos Amado da Silva, presidente da Federação Portuguesa de Rugby, que começa agora o seu terceiro mandato, pretende prosseguir o trabalho que tem vindo a desenvolver com o objetivo de aumentar a visibilidade e notoriedade do rugby em Portugal, apostando na promoção do campeonato nacional e em grandes acontecimentos para a modalidade como o Mundial 2023.

O presidente falou com a SportMagazine acerca do tema, abordando ainda a sua perspetiva da situação atual do desporto e do rugby português. Recordamos que a Seleção Nacional garantiu um lugar no Mundial 2023, a ser jogado em França, após um empate ao cair do pano com os Estados Unidos (16-16), que lhes garantiu a qualificação.

Leia a seguir a entrevista completa com Carlos Amado da Silva, presidente da Federação Portuguesa de Rugby, em exclusivo para a SportMagazine.

SportMagazine (SM) – Que avaliação faz do desporto em Portugal atualmente?

Carlos Amado da Silva (CAS) – A tendência é dizer mal. Não temos cultura desportiva, mas são coisas que vêm já dos nossos antepassados, nunca se valorizou o desporto como devíamos. As pessoas ainda não perceberam que cada euro que se investe no desporto são menos dois que se gastam na farmácia. É uma questão de educação nas escolas, o desporto escolar que não funciona. Não há muito de bem a dizer porque não há tradição. Mesmo os professores de educação física, quando eu era mais novo, eram quase marginalizados, parece que eram de uma classe inferior aos outros professores. As pessoas cada vez são mais velhas e não há cuidados físicos, as pessoas tomam medicamentos, fazem análises, mas ninguém trata de cuidar do físico, a parte orgânica, muscular. Devia ser continuada. Uma pessoa é velha mas tem de se mexer, não é metê-la nos lares que as coisas se resolvem. Há uma grande diferença, eu sou adepto de que haja atividade física para toda a gente, desporto não. Desporto é para alguns. Obriga a competição, a resultados, eu defendo atividade física para toda a gente, o desporto para quem for capaz – tem de se alimentar bem, tem regras, tem de repousar, tem uma série de circunstâncias que podem ser perigosas.

SM – Quais são, para si, as maiores forças e fraquezas do desporto português?

CAS – A maior fraqueza é a falta de cultura desportiva, as pessoas não estão motivadas para o fazer. A maior possibilidade de progressão vai exatamente por aí. Como há tão pouco nesta área, facilmente se melhora as condições, sobretudo mais no desporto feminino. As mulheres começaram há pouco tempo, agora estão ao mesmo nível. Por aí é normal que o número aumente, mais no feminino que no masculino. Os rapazes têm a tentação de ficar muito fechados em casa, porque os pais trabalham e não têm como deixar os miúdos nas escolas de desporto, seja qual for, andebol, voleibol, rugby, etc. Se houvesse cultura desportiva, as escolas oficiais teriam a mesma atenção entre o físico e o intelectual. Há que modificar radicalmente a cultura desportiva de pequeninos para mais velhos. Por exemplo, quem quiser vir para aqui [Jamor] treinar como é que vem? Não há transportes, não têm idade [para conduzir].

SM – Quais os dois, três pontos que aponta como críticos para o desenvolvimento do desporto em PT?

CAS – Escolas, escolas e escolas. Professores de educação física valorizados e a sociedade de, numa forma geral, perceber a importância da atividade física. É preciso que se enquadre a atividade física como uma condição básica para um desenvolvimento capaz, humano e duradouro que permita as pessoas ter saúde física e mental. E isso é um fator que tem de ser enraizado nas escolas. O desporto escolar tem de evoluir, tal como a própria construção. Não tem de ser cada escola ter um estádio. Mas, se calhar, um grupo de escolar ter, ou ter os meios de transporte para levar as crianças para as atividades extracurriculares. Nas férias, por exemplo, os pais não sabem onde meter os miúdos. Os clubes é que muitas vezes se organizam para fazer isso. Isto é uma obrigação social, a gente devia ter essas preocupações, as autarquias, etc. Essa necessidade sente-se, mas ninguém agarra nisso com verdade.

SM – Falou de professores de educação física. Pergunto-lhe como encara a figura e papel não só dos mesmos, mas também dos treinadores, para o desenvolvimento do desporto em Portugal?

CAS – Quando falamos em treinadores, eu falo da minha modalidade, embora conheça muitas, temos aí um problema grave. A lei base do desporto também devia ser alterada. Nada contra o futebol, mas é tudo feito à base do mesmo. As pessoas não podem pensar que a exigência de modalidades amadoras como o rugby, basquetebol, andebol é a mesma. Muitos não vão ser profissionais. Só os do futebol e os professores de educação física, esse serão. Os amantes de uma modalidade, um antigo jogador, querer fazer o grau I, II ou o grau III no desporto é difícil. Exigem coisas que acho que não são necessárias. É preciso voltar a estudar e a analisar a situação dos cursos de treinadores, que não são adequadas à realidade. São boas para profissionais, mas não são boas para quem não o é. Isso tem de ser visto, até para termos os miúdos mais acompanhados nos treinos. Tem de haver uma maior facilidade, exigência para os profissionais, e depois é encontrar de forma diferente os que não o são. são coisas completamente distintas.

SM  – Quais os maiores desafios para o desenvolvimento da sua modalidade?

CAS – Espaços. Não temos nenhuma dificuldade em caracterizar o que se está a passar. Mesmo com o Mundial, é provável que haja um crescimento grande de procura. E o que é que nós podemos oferecer em troca dessa procura? Espaços. Onde é que eles estão? Em Lisboa ainda vai havendo, felizmente há clubes exclusivamente de rugby. Mas esses, no caso, já têm 500 praticantes. Como calcula não podem ter mais que isto com instalações próprias. Mas a maioria não tem, sobretudo fora de Lisboa. Quem está pior nisto tudo é a Seleção Nacional que não tem um estádio decente onde possa jogar e treinar. Isto [campo do Jamor] precisa de ser repensado e apoiado. Está-se a aproximar o Mundial e as pessoas não têm noção da proporção do rugby em termos mundiais. Portugal é o que é, menor em termos de praticantes e não em qualidade. Estamos a competir com os grandes do mundo, somos 16º no ranking mundial, o que significa que temos uma qualidade que muitos países com orçamentos maiores não conseguem. Portanto, o rugby é um desporto mundial e o campeonato do mundo do rugby é o terceiro evento desportivo mais importante do mundo, após os Jogos Olímpicos e o campeonato do mundo de futebol. E as pessoas não valorizam isto. Porquê? Porque em Portugal o rugby é pequenino, tal como o hóquei em patins é pequenino na Austrália. Isso não significa que o rugby não seja uma modalidade com grande impacto. E, agora defendo eu, é um desporto com umas características muito particulares, que eu desafio a tentar experimentar. Acho que às vezes as pessoas não querem experimentar porque têm receio depois de não conseguir sair. Eu fiz várias modalidade se digo com toda a franqueza que todas são boas para o rugby depois. No rugby salta-se, corre-se, chuta-se. Só há uma coisa que é diferente, para marcar o ensaio tem de ter a bola em sua posse. Nos outros tem de a largar. Isso tem um significado: é o grupo, é o conjunto, tem de estar sempre agarrado. Depois a baliza é muito grande, não vale a pena jogar à defesa, quanto mais jogar à defesa pior é. E, sobretudo, e esta é a grande diferença, o comportamento das pessoas dentro do campo, e fora também. Dentro do campo é um desporto duro. Se não houver uma formação cívica e de respeito pelo adversário e ajuda do colega… são coisas completamente diferentes e, nos seus aspetos, é uma modalidade exemplar. As pessoas depois, numa terceira parte, que só nós é que temos isso, fazemos as pazes uns com os outros, fica tudo bem. E se for ver, em jogos da Seleção Nacional, as claques não estão engaioladas, estão todos juntos. Americanos com russos, espanhóis com portugueses, franceses com italianos, bebem cerveja com camisolas diferentes. É um desporto diferente e em Portugal as pessoas não têm essa noção. Como é tão bom, temos a obrigação de o divulgar e é essa a minha preocupação – que se conheça. Agora mandámos vir 20.000 bolas para oferecer a crianças no país todo, para perceberem que a bola não é redonda. Infelizmente, quando comparo, basta ir a Espanha, o apoio que eles têm é completamente diferente. Precisamos de espaços e começamos a dar o exemplo do Estádio Nacional, que não temos. Este espaço precisa de ser recriado, adaptado. Um complexo desportivo que dê para sete mil, 10 mil pessoas. Por exemplo, fizemos um jogo com o Japão em Coimbra que foi um sucesso mas não conseguimos fazer jogos no Porto. Procurámos e continuamos a procurar mas não há espaços. Faço uma chamada de atenção para experimentarem. Experimentem e acreditem, que é uma coisa diferente.

SM –  Que medidas podem ser tomadas para uma maior visibilidade do desporto e das modalidades?

CAS – Isso tem que ver com a divulgação. Nós, por exemplo, temos a Rugby TV, que criámos por causa da pandemia, que está a ter grande sucesso no meio. Hoje em dia vê jogos da divisão de honra em qualquer parte do mundo, sem pagar. Mas penso que, e aliás, já tentei fazer isso, que temos equipamento adequado e local onde podíamos pensar em, se houvesse o interesse de outras modalidades se associarem entre si, criar uma estação onde estivesse desporto a ser divulgado sem estar a pedir favores e a pagar para passarmos. É claro que se não se divulga as pessoas não conhecem. Há 60 ou 70 anos havia apenas dois canais de televisão, a RTP1 e a RTP2, mas na RTP2 passavam todas as modalidades – campeonatos nacionais de futebol, andebol, basquetebol, rugby -, com imagens, classificações. Agora não há nada. Lanço o desafio ao Comité Olímpico [de Portugal], ao governo e ao IPDJ de criarmos um canal de televisão não pago, juntamente com outras modalidades, que pudesse divulgar as mesmas.

Sem divulgação não dá. Os jornais são a mesma coisa, também não falam de nós. Vem uma notícia de duas linhas quando vamos ao Mundial e acabou. Não querem saber da cor da camisola, com quem se joga, quem são os treinadores, o que aconteceu aos jogadores, etc. Por exemplo, como é que essa malta, não sendo profissionais, fazem vida de profissional? Como é que conseguem coordenar as coisas? São exemplos para a vida e mesmo para os outros miúdos, para os portugueses em geral. Nós temos aqui brilhantes profissionais noutras áreas e são Lobos. E vêm treinar, trabalham, têm a vida social deles. Isto é que tem de ser divulgado como exemplos de vida (…) Deem hipótese às pessoas de conhecer outras realidades.

SM – Como abordam a questão do desporto no feminino e da formação de jovens (captação/relação com escola/evolução para alto rendimento)?

CAS – Os clubes é que têm essa função [da formação]. Nós temos a divulgação, o apoio, damos formação aos treinadores com as dificuldades que falámos há bocado, mas procuramos entrar nas escolas o que não é fácil, muitas vezes. Os miúdos são acompanhados por professores, têm a sua vida normal, portanto querem ir para casa. Portanto alguém vai ter que pagar mais para [os alunos] fazerem mais alguma coisa. É a tal cultura [desportiva] que não há. Os miúdos que não tenham capacidade material, não vão fazer rugby no meio da estrada. Alguém vai ter de os levar, tem de haver organização, com as juntas de freguesia, as câmaras municipais, os próprios clubes vão buscá-los. Mas, se calhar, não basta ir buscá-los, que dê para estudarem ao mesmo tempo com alguém que os ensine para os pais estarem sossegados. Com os pais a sair pelas 18, 19h00, e os miúdos a sair das escolas pelas 15, 16h00, muitos sem ter para onde ir, como é que vão fazer atividades extracurriculares se não houver ninguém a apoiar? A Federação incentiva e apoia os clubes que o fazem que têm um grande papel no desenvolvimento do rugby em Portugal. Temos de ter mais clubes, mais e melhores.

SM – Posto isto, quais os grandes objetivos para este novo mantado, tendo em conta a aproximação de um Mundial?

CAS – O Mundial que se aproxima foi uma boa surpresa, estamos lá, não vamos falar mais sobre isso. Vamos lá para ganhar o que for possível ganhar, não vamos lá só marcar presença. Vamos preparar-nos e estou convencido que vamos fazer uma figura digna, com bons resultados. No futuro, queremos ir ao Mundial na Austrália e começa a ser uma normalidade nós irmos aos mundiais. Queremos também melhorar o rugby feminino, que subimos do terceiro escalão para o principal, quer no sevens quer no quinze. Nos masculinos, os sevens também estão no escalão principal e a nossa pretensão é chegar ao circuito mundial e aos Jogos Olímpicos, que ainda é muito complicado, mas é nossa ambição e estamos a preparar-nos para isso.

E, finalmente, neste mandato, queremos finalmente ter aqui um estádio para o rugby que nós não temos. Ter aqui um espaço, precisamos que o governo nos ajude. Não temos condições de trabalho. Precisamos de um estádio com 10 mil, sete ou oito mil pessoas, com bancadas cobertas de um lado e de outro, onde possamos receber os nossos convidados, jogos internacionais, sem que as pessoas estejam a levar com frio e chuva. Uma coisa normal, não pedimos nada do outro mundo.

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