30 de Setembro 2022 07:55
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André Rocha e a VOSports: “Estamos a identificar os jogadores do futuro”Exclusivo 

André Rocha. Foto: DR

Há neurónios portugueses no desenvolvimento da tecnologia que se está a impor na seleção e recrutamento da nova geração de talentos desportivos na Europa e nos Estados Unidos. André Rocha, COO (Chief Operation Officer) da VOSports, explicou à SportMagazine como a plataforma VOStats recolhe e processa parâmetros de performance que ajudam treinadores e clubes a tomarem melhores decisões de forma mais rápida.

SportMagazine (SM) – O seu treinador zangou-se quando o questionou sobre tática, durante um jogo de futsal em que o André estava na baliza. Anos mais tarde o clube era cliente da startup tecnológica fundada por si. O que é a VOSPORTS?

André Rocha (AR) – Eu sempre tive proximidade com treinadores por via do meu pai. Desde cedo que me apercebi da ligação direta entre o treino e o vídeo. Joguei futsal e durante um jogo, ainda na segunda divisão nacional, comecei a perceber que a minha posição no campo me oferecia uma visão privilegiada da equipa, logo, uma interpretação tática distinta da que tinha o treinador, que por estar junto ao banco tinha uma visão lateralizada do jogo. Depois de longas conversas e pontos de vista divididos, decidi tentar encontrar um software de edição de vídeo ligado ao desporto. O que encontrei era muito caro e complexo de utilizar. Perante essa dificuldade comecei a desenvolver a minha própria ferramenta. Quis encontrar uma conexão personalizável entre o vídeo e a análise qualitativa e quantitativa. O tempo é precioso para um treinador, começamos por otimizar o tempo gasto na edição de vídeo. Sempre que edito um vídeo, estou a criar um clip, parametrizar uma ação individual ou tática e criar estatística simultaneamente para a equipa e para os jogadores. O resultado é a capacidade de gerar vídeos com todos os golos de uma época, criar um relatório de performance dos atletas e muito mais em segundos. Taticamente, o sistema faz a sobreposição das ações editadas identificando padrões técnico-táticos positivos e negativos.

Pensemos no futsal, onde as bolas paradas são momentos de jogo importantes. Se eu pedir imagens de todas as bolas paradas de um conjunto de jogos e estiver a observar o padrão existente, posso facilmente tirar conclusões que no final podem fazer a diferença no treino ou durante um jogo. A essência do software não fica por aí. A VOSports oferece ao treinador uma liberdade de customização, a observação passa a ser pessoal e qualitativa. É a ferramenta que se adapta ao treinador e não o inverso. Com o tempo fomos enriquecendo a informação disponível, valorizando a aplicação.

SM – Como é que a aplicação se tornou conhecida, uma vez que no início tinham poucos recursos para marketing?

AR – Portugal deve ser dos países que mais treinadores exporta em qualquer modalidade e o boca a boca internacionalizou a aplicação, ou seja, crescemos organicamente. A empresa foi vendida em 2020 a um grupo americano e hoje estamos muito focados no recrutamento e análise de performance dos jovens atletas nos Estados Unidos. Durante o período da Covid-19, tivemos o privilégio de sermos selecionados para analisar mais de 15 mil jogos de basquetebol. Foram analisados o top-200 de atletas masculinos e femininos do liceu. Atletas que estão na linha da frente para serem recrutados para as divisões principais universitárias ou mesmo terem entrada direta no mundo profissional, a NBA. Estamos a identificar os jogadores do futuro.

SM – Na Europa, as competições sentiram alguma estagnação devido à pandemia. Como é que se adaptou?

AR – Tivemos de olhar para o desporto fora da Europa. Fomos muito portugueses na forma como confrontámos o problema. Pensámos fora da caixa e adaptámo-nos. Uma característica muito própria do português e razão pela qual o País é tão valorizado tecnologicamente na Europa. Somos um povo capaz de olhar além do problema. Em Portugal mantivemos algumas certificações em andamento, continuámos a dar formação gratuita aos nossos treinadores, demonstrando que esta tecnologia é fácil de usar. Teria sido muito difícil fazer isto durante a época competitiva, pois a maioria dos técnicos não o faz profissionalmente, dado que têm de dividir o seu tempo com a família, o trabalho e o clube. Desse modo, as restrições de mobilidade durante a pandemia ajudaram a consolidar esta formação. E agora estamos a ter algum retorno com o início da competição. O foco é mais o treinador a usar a ferramenta para expor uma ideia aos atletas. É muito mais fácil convencer um jogador de que fez algo de errado mostrando-lhe o erro.

SM – A viragem operacional para os EUA foi uma boa escolha condicionada pela realidade portuguesa?

AR – O recrutamento nos Estados Unidos nunca parou, porque os pais estão a treinar os filhos desde os cinco anos para entrarem na Universidade ou para serem profissionais. Falamos de um universo de milhares de jogadores dos quais serão selecionados cerca de 500. Sendo nós uma empresa de vídeo e de estatística que os treinadores usam à distância de forma segura, conseguimos fazer com que os treinadores, os recrutadores, diretores técnicos das universidades e os pais pudessem estar próximos dos atletas, mesmo estando à distância. Já fazemos isto em basquetebol, no voleibol, no futebol e no andebol e muito brevemente, vamos entrar nos desportos tipicamente americanos. A cultura comercial americana e um core tecnológico português foram os ingredientes certos para o crescimento que estamos a ter neste momento.

SM – Sente-se um visionário da tecnologia?

AR – Não me revejo nessa definição. Sou um empreendedor e acredito que encontrei um nicho numa área que gostava e para mim tornou-se fácil inová-la de forma intuitiva. Numa primeira fase era o cliente do meu próprio produto e isto é uma grande vantagem. Mas temos de crescer e inovar, para isso deixei de ser cliente do meu produto e passei a ouvir os nossos utilizadores, pais, atletas, treinadores, clubes e seleções. Um produto só faz sentido no momento em que o utilizador se identifica com ele. Mas continuamos a evoluir. Hoje adicionamos à essência da VOSports o feedback dos nossos colaboradores, que por estarem espalhados pelo mundo, oferecem uma diversidade cultural ao sistema.

SM – Continuou a reunir-se com os treinadores?

AR – Comecei a tornar-me cada vez mais interessado na área da análise e tecnologia no desporto, tanto em futsal como em futebol. Fui conhecendo os treinadores enquanto meus alunos e aí ganhei alguma humildade. Acabei por perceber o jogo de outra forma. Lá dentro, como jogadores, temos a nossa visão particular, mas o treinador tem que pensar em todas as peças. Não é só a visão do guarda-redes ou do treinador que estão corretas, as riquezas do desporto vêm do combinar das variáveis preditivas e improváveis que o jogo nos oferece.

SM – Entretanto, o recrutamento gerou outro nicho de negócio que tem a ver com os pais?

AR – Nos Estados Unidos, os pais dos atletas tornaram-se nossos utilizadores. Os vídeos dos melhores momentos dos filhos não só os promovem como atletas como junto das universidades para aquisição de bolsas de estudo. Com a Covid-19, a nossa tecnologia ajudou a que o desporto não parasse e que o público estivesse sempre presente virtualmente. Nasceu assim um novo canal de negócio, que também já se está a sentir na Europa. No desporto, nem todos os dados se transformam em informação. Na VOSports temos o cuidado de compreender quem os usa antes de criar formas de os transformar e entregar. O que para um treinador é um momento ofensivo de superação tática coletiva, para um pai é um momento mágico que quer partilhar e, para o atleta, um movimento técnico perfeito que lhe deu o golo e a entrada na universidade. É aqui que estamos agora focados, o que podemos fazer com todos estes dados para os tornar informação ou conteúdos e comercializá-los à medida de cada um.

SM – Estamos a falar de uma quantidade grande de informação?

MV – Neste momento já temos mais de cinco milhões de clip’s de jogadores e devemos ter atingido o bilião de datapoint’s [parâmetros de um determinado jogador].

SM – E a evolução?

MV – Ter futuro antes do passado, ou seja, prevenir. Ter estes dados cada vez mais em tempo real. O sistema avisa ou alerta antes de acontecer, por exemplo, prevendo
lesões. O comportamento físico de um atleta segue um determinado padrão e uma variação desse padrão pode resultar de diferentes fatores, emocionais ou físicos, entre outros. Estar atento aos pormenores irá ajudar a prevenir lesões. O sucesso irá sempre estar no somatório entre o fator tecnológico e humano. O objetivo final não é desenvolver um sistema para substituir o treinador, mas sim para completá-lo, oferendo-lhe informação de qualidade e tempo para ele fazer o que gosta, viver e manter a paixão pelo seu desporto.

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