18 de Maio 2022 18:12
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Samuel Barata detalha treinos, recorda perda do treinador e revela objetivos para 2024Exclusivo 

Samuel Barata, atleta português. Fotos: Barata/Facebook

Samuel Barata nasceu na Suiça, mas aos 10 anos mudou-se para Bouça, na Covilhã, em Portugal, terra da sua família. Pouco depois, aos 12 anos, começou a treinar atletismo. E nunca mais parou. A rotina transformou-se em algo sério, aos 18 anos, quando passou a viver em Lisboa e a vida ganhou novos sentidos, com a formação académica em Química e o convite para treinar no Benfica – o seu atual clube.

Dez anos depois, o meio-fundista, que no fim de semana ficou a um segundo do recorde nacional dos 10 km, quer dar novos – e maiores – passos na carreira. E no horizonte estão também as Olimpíadas de Paris, em 2024. Em entrevista ao nosso portal, o atleta beirão fala-nos do processo de treino, recorda o treinador Pedro Rocha, e detalha as suas metas desportivas.

SportMagazine – Como funciona a rotina de treinos de uma atleta de alto rendimento? 

Samuel Barata (SB) – Basicamente, treino duas vezes por dia. De manhã venho treinar no Centro de Alto Rendimento do Jamor, e à tarde, o segundo treino, faço sempre em casa. Este é sempre um treino mais regenerativo. Faço apenas uma corrida contínua leve perto de casa. O treino da manhã é o treino principal do dia. Não faço treinos fortes todos os dias, intercalo com um dia mais fraco. Depois, também tenho treinos suplementares, como ginásio, e treino de técnicas. Isso faço sempre de manhã no Jamor.

SM – Quando refere treinos “fortes e fracos” o que significa para si?

SB – Um treino forte é, sobretudo, um treino de séries, intervalado, onde treino em ritmo mais forte semelhante ao de competição. No mais leve faço uma hora de corrida contínua. O treino mais forte é mais intervalado e a simular os ritmos de competição com o objetivo de evoluir nas provas. Claro que não é sempre linear. Há lógica de construção do treino. Faço o último treino para chegar à competição na melhor forma possível. É assim que funciona durante a semana. Faço treinos quase todos os dias, dependendo da altura da época. Se for uma preparação geral, faço todos os dias. Numa altura mais competitiva, já é treinar menos e recuperar mais.

SM – Quantos quilómetros costuma correr por treino?

SB – Pela manhã treino entre uma hora e meia e duas horas. À tarde, menos. Em termos de quilómetros, na preparação em geral corro cerca de 180 km semanais. Ou seja, dá uma média de 25 a 26 quilómetros por dia. Por exemplo, se eu fizer um hora de manhã, com 15 quilómetros, faço mais 10 quilómetros à tarde e completo os 25 quilómetros. Na altura mais competitiva, faço apenas voltas de série e muito menos quilómetros.

SM – E não descansa?

SB – O descanso é sempre ativo. Se estou cansado da viagem, descanso. Mas, em geral, não.

SM – A alimentação é especial para suportar este ritmo de treino?

Samuel Barata tem rotina de treinos intensa

SB – Não é uma alimentação especial. Como de tudo. Tento respeitar a ‘roda dos alimentos’. Como muitos legumes. Fast food só quando não há alternativa. Mas tento manter uma alimentação equilibrada. E como bastantes vezes ao dia também. Hidrato-me sempre bem e tenho cuidado para não engordar.

SM – Treina desde os 12 anos. Neste percurso, seguramente existiram alguns fatores que foram essenciais: estrutura física do seu clube, apoio técnico, apoio familiar e a sua própria força de vontade. Algum destes aspetos foi mais importante ou acredita que o conjunto formou a receita do seu sucesso?

SB –  Eu sou da Covilhã, no centro-norte de Portugal, e vim para Lisboa com 18 anos, para cá treinar com um bom grupo de treino e com um bom treinador, o professor Pedro Rocha. Isso foi crucial porque vi o que era ser um atleta de alto rendimento, o que tinha que fazer. E também foi bom porque tive uma boa estrutura familiar. Os meus pais sempre me apoiaram para que isso acontecesse. Acho que foram os dois fatores cruciais. Se eu tivesse ficado na Covilhã e os meus pais não me apoiassem, não teria chegado onde estou.

SM – No ano passado perdeu o seu treinador, o Pedro Rocha. Qual foi o papel dele no seu processo de evolução como atleta?

SB – Foram quase dez anos de trabalho. E também foi um trabalho de acreditar. Nesse período, nem sempre as coisas correram assim tão bem. Eu também estava a estudar, a tirar a minha licenciatura em Química, e ele sempre acreditou no meu potencial e que eu podia ser um bom atleta. Ensinou-me o propósito dos treinos. Eu estava a treinar e sabia porque estava a treinar. Foi muito importante tê-lo como treinador e neste momento é algo que eu conservo. Tudo aquilo em que me tornei foi pelo trabalho que ele teve comigo. Pela insistência, resiliência comigo. É por isso que acho que ele foi muito importante e agora o trabalho está a produzir resultado.

SM – Quem é o seu novo treinador? Está adaptado?

SB – Neste momento, o meu treinador oficial é o Pedro Nunes. Mas é um treinador só no papel, porque na verdade ainda estou a fazer todos os treinos do Pedro Rocha. Tive que arranjar um treinador que é um grande amigo meu, o Pedro Nunes, pois existe um regulamento que me obriga a ter um treinador para determinadas competições. Neste momento estou assim, as coisas estão a correr bem.

SM – Então, na prática, o seu treinador continua a ser o Pedro Rocha… Sente algum prejuízo em não ter um treinador ao lado, fisicamente?

SB – Quando as coisas correm bem, está tudo bem. Mas quando as coisas começam a correr mal, aí é que senti a falta da presença, da palavra, falta aquela orientação no modo de encarar as coisas, aquela palavra de motivação. Foi aí que senti que não é só o treino e falta esse outro papel importante da palavra para motivar e orientar. Sinto que é o que faz mais falta. No ano passado, houve uma altura da época que as coisas não estavam a correr bem. Não é só o treino, é apontar onde tem que treinar mais… Mas a experiência ajuda e pouco a pouco as coisas vão acontecendo.

SM – No último domingo conseguiu um ótimo tempo na prova de Valência, com recorde pessoal. Já esperava esse resultado tão bom no arranque do ano?

SB – Eu sabia que eu estava muito bem. Tenho treinado os últimos dois meses a um bom nível. Preparei-me para o Campeonato da Europa de corta-mato muito bem, mas cheguei lá e não me adaptei à dureza do percurso [terminou no 37.º posto]. Porém, o treino e o trabalho estavam cá nas pernas. Uma semana depois cheguei à São Silvestre de Lisboa e fiz um treino muito bom, 28m43s, e eu sabia que o treino que eu estava a fazer poderia aproximar-me de um tempo ali entre 28m05 e 28h10. Na realidade, corri agora 28m12s e estou satisfeito. Foi recorde pessoal e ficou provado que aquele corta-mato foi só um mau dia.

SM – E quais as suas próximas metas? Pensa em Paris 2024?

SB – Este verão vou ao Europeu de Pista. Tenho marca para ir aos 10 km e gostava de lá ir e fazer um bom resultado. Quero treinar para chegar lá e bater-me com os melhores da Europa. Esse é um dos objetivos. Outro é bater o recorde pessoal dos 10 km na pista, baixar dos 28 minutos, e fazer um bom tempo na prova pessoal na prova dos 5 km. Esses são os objetivos a curto prazo. E ir bem coletivamente, para ajudar os objetivos do meu clube, o Benfica. Daqui a um mês tem mais uma competição de corta-mato e é um dos objetivos da época. A longo prazo, quero estar em Paris 2024. Não sei se ainda vou continuar a estar nos 10 km ou se vou passar para a maratona. Vou decidir isso futuramente.

Samuel Barata foi o vencedor da prova no último mês de dezembro. Foto: Samuel Barata/Facebook

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