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Pedro Dias: “A sociedade não está preparada para ver os atletas como intelectuais”

Bebé, Inês Caetano, Sofia Ramalho e Pedro Dias. Foto: SM

Numa das sessões mais concorridas do 13º. Congresso Mundial de Treinadores ICCE (International Council for Coaching Excellence), quatro atletas e ex-atletas de sucesso em diferentes modalidades estiveram juntos a falar sobre as suas respetivas perspectivas  acerca dos treinadores.

Sob o tema “Athletes Perspectives on their Coaches”, o encontro uniu o guarda-redes campeão mundial com a Seleção Nacional de Futsal Bebé, este bastante aplaudido pelos adeptos no evento, o ex-judoca olímpico Pedro Dias, a ex-internacional portuguesa de basquetebol Sofia Ramalho, além da ex-pentatleta Inês Caetano, mediadora do encontro que aconteceu esta sexta-feira, no terceiro dia do congresso que acontece na Universidade de Lisboa até o domingo.

Sofia Ramalho, antiga estrela do Benfica, destacou alguns dos questionamentos que fazia quando atuava profissionalmente. “Perguntava-me: ‘E quando eu acabar de jogar, o que eu vou fazer?’. Por isso é importante o apoio dos treinadores e que nós mesmos reflitamos o que vamos fazer quando pararmos. Para mim foi muito importante estar na universidade. Eu tive um treinador que sempre apoiou-me. Tive sorte de passar por um clube que entendia todas as circunstâncias além do jogo”, destacou Sofia, que fundou e atualmente é diretora da AMINGA, projeto que apoia o atletismo, a educação, o bem-estar e a atenção plena entre os jovens do Sul Global.

Pedro Dias, por sua vez, deixou um longo testemunho do que viveu na sua longa carreira como atleta. Destacou a falta de apoio para os estudos e que o treinador precisa refletir acerca da sua função, indo além do desempenho meramente desportivo.

Dias: “Tive treinadores que só se preocupavam com o desporto, não queriam saber o que acontecia fora do tatame”. Foto: SM

“Quero dar um depoimento para mostrar como é importante um treinador na vida do atleta. Treinar não diz respeito apenas ao desporto. No meu caso, por exemplo, eu passava mais tempo com o meu treinador do que com qualquer outra pessoa. Então, essa pessoa tinha um papel imenso na minha vida. Tive sorte em ter diferentes treinadores na minha carreira que me apoiaram. No início, tive professores que me apoiavam muito no começo, com os estudos e tudo. Mas num certo ponto tive treinadores que só se preocupavam com o desporto, não queriam saber o que acontecia fora do tatame. Naquele momento, se o clube não se importava, o treinador não se importava, a federação também não, ninguém se importava além dos meus pais, então comecei a pensar que meus pais é que estavam errados”, começou por dizer.

“Estava tão focado nas grandes competições e na meta de conseguir medalhas que eu passei a achar que não tinha tempo para estudar. Eu não tive ninguém para me dizer: ‘suas  metas são importantes, a Olimpíada é importante, mas existe uma vida lá fora. Tu precisas se preparar agora para o que vem no futuro’. Quando acabei tudo, eu pensei ‘e agora?’. Eu nunca parei de estudar, mas não estava preparado para o que vinha após a vida de atleta. Quando acabei os Jogos Olímpicos, eu comecei a chorar e as pessoas pensavam que eu estava a chorar porque havia perdido e estava triste, mas não. Estava a chorar porque eu não tinha mais um propósito na minha vida. Pensei: ‘e agora?’. Essa parte foi muito difícil, infelizmente os treinadores não estavam preocupados com esse momento. Em geral, não estão preocupados. Se ganhares medalhas, não importa o que fazes lá fora”, disse Pedro seguido sob aplausos. 

Pedro Dias atualmente é membro da Academia Olímpica Portuguesa e do Panathlon Clube de Lisboa e diretor da Sport Evolution Alliance. “A sociedade não está preparada para ver atletas como intelectuais”, também destacou ao criticar a perspectiva social sobre uma visão pormenorizada do atleta como profissional capaz de desenvolver habilidades que vão além do que pede o esforço físico. 

A partir disso, o guarda-redes Bebé trouxe o seu exemplo. Único dentre os 17 atletas campeões do mundo de futsal no último mês de outubro se dizer “não-profissional”, o internacional português destacou a rotina pesada de quem precisa se manter como atleta de alto rendimento ao mesmo tempo que tem outras obrigações profissionais.

“Foi difícil. Na época eu era jogador do Benfica, tínhamos três turnos de trabalho por dia e ainda tinha a universidade. Minha vida não parava. Após tudo isso, eu confesso que não estava muito animado para os estudos”, admitiu. “Os profissionais vivem numa bolha, não sabem como é o verdadeiro futsal. Os amadores têm de trabalhar e treinar, e a maioria fá-lo sem receber. Essa é uma realidade que quem vive na bolha desconhece”, acrescentou Bebé.

“Mas havia três jogadores na minha equipa: o João Benedito, o Gonçalo Alves e o Miguel Fernandes. Eles eram jogadores que estudavam, acabaram a universidade e sempre me aconselhavam a seguir o mesmo caminho. Eles sempre repetiam: “Bebé, a carreira desportiva não é para a vida inteira. O que vais fazer depois disso?’. Então graças a esses três eu fui para a universidade, segui o conselho deles”, completou o guarda-redes, que aos 38 anos segue em atividade no Leões Porto Salvo.

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