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Paulo Pereira: a liderança como fator de coesãoExclusivo 

Paulo Pereira, selecionador nacional de andebol. Fotos: Federação Portuguesa de Andebol

Por Paulo Pereira* (Selecionador Nacional de Andebol)

Liderar é um processo complexo que implica sensibilidade e atenção para alguns fatores importantes. Quando era um jovem treinador, pensava que as tarefas relacionadas com a organização do treino e a planificação dos jogos deveriam ser as minhas competências mais importantes para a produtividade da equipa. Ainda que hoje ache muito importante esta parte do nosso trabalho, estou cada vez mais sensível para os fatores relacionados com a gestão do grupo como um todo com um objetivo capaz de satisfazer a organização, mas, sobretudo, os indivíduos que a compõem.

Entendo hoje que liderar é, sobretudo, servir os outros, e não pensar que todos estão à nossa disposição para nos servirem. É claro que os contextos profissionais variam de acordo com os locais e os objetivos dos clubes ou federações para as quais trabalhamos. Não é a mesma coisa liderar europeus do Norte ou do Sul, africanos ou asiáticos, romenos ou japoneses. Nos diferentes contextos, o melhor líder será sempre aquele que melhor se adapte às circunstâncias no sentido de encontrar as soluções capazes de gerar sucesso.

Paulo Pereira é o selecionador nacional de andebol desde 2016

Se tivermos que responder à pergunta, ‘o que necessitamos para formar uma equipa de sucesso?’, todos sabemos responder com maior ou menor precisão. Normalmente diremos que necessitamos de ser humildes, honestos, comprometidos, entusiasmados, coesos, constantes, generosos, resilientes etc. O líder entra neste processo como sendo a pessoa chave para unir todos os elementos antes mencionados. Creio cada vez mais que isto só se consegue quando se garante que o objetivo a alcançar pertence a todos os elementos que constituem o grupo. Garantir o alinhamento de todos em direção ao objetivo será sempre o pressuposto capaz de aumentar as possibilidades do sucesso. Relativamente ao objetivo, cada vez mais acredito que devemos estipular metas difíceis de alcançar. Não aceitarei nunca colocar uma meta fácil de atingir somente com o objetivo de gerar felicidade. A isto chamo medo!

Ensinar os outros a liderar

Estou certo de que aprendemos muito mais com a derrota do que com vitórias fáceis que nos possam fazer felizes de forma temporária e, de certa forma, virtual. A meta maior do líder será fazer com que todos venham a ser líderes de si próprios. Embora difícil, esta deverá ser sempre uma missão a cumprir pelo líder. Devemos fazer o possível para que os indivíduos e os grupos sejam autónomos. Induzir e criar condições para a autonomia deverá ser sempre uma tarefa importante no trajeto de construção das equipas. Ir atrás sempre que possível deverá ser um propósito, não esquecendo, nunca, que em momentos de crise, todos esperam que o líder assuma as suas responsabilidades. Neste caso deveremos ir à frente.

Skils como o autoconhecimento, a autorregulação, a empatia e as habilidades sociais, são extremamente importantes para que o líder possa influenciar os grupos que trabalha. O autoconhecimento que resulta muito de aprender a fazer fazendo, pode evitar imensos problemas, sobretudo ao nível do relacionamento com os outros. Se eu sei que só sendo honesto nas palavras e falando verdade aos liderados, trabalho com maior compromisso e dedicação, jamais poderei mentir ou esconder o que quer que seja para que todos os dias acorde entusiasmado. Conhecermo-nos a nós próprios será sempre um propulsor de entusiasmo se deixarmos que seja a nossa consciência a comandar as operações. À imagem do autoconhecimento, a autorregulação é algo que se fortifica com a experimentação. Recordo-me que agora consigo controlar melhor as emoções em público porque treinei a forma como falo comigo próprio. Por outro lado, muito dificilmente conseguiremos mobilizar alguém quando não somos empáticos, quando não conseguimos sensibilizar e mobilizar os outros. A empatia e outras habilidades sociais são uma ferramenta determinante para podermos estar mais perto daqueles que queremos motivar para a tarefa.

O poder da vulnerabilidade

Trabalhar em grupo nunca será uma tarefa fácil. É importante que a comunicação seja fluída e transparente. Todos se devem preocupar com todos. A boa comunicação está associada aos grupos altamente produtivos, já que facilita a deteção dos erros e, sobretudo, quando a sua aceitação pelo líder, ou por qualquer outro elemento do grupo, não constitui um problema de ego ou de outro tipo.

Por outro lado, atingir patamares de rendimento superiores está associado diretamente à confiança existente no grupo. Aqui, confiar no outro, ou nos outros, assume um papel determinante. Devemos procurar chegar a um estado que permita aceitar erros de forma fácil, substituir o outro com generosidade num dia mau, aceitar o outro tal e qual como ele é, ser capaz de pedir ajuda com humildade, ou seja, mostrar vulnerabilidades sem constrangimentos. Olhar para a vulnerabilidade como um poder e não como uma debilidade. Para que se consiga elevar os níveis de produtividade é necessário que o ambiente seja um ambiente seguro, em que todos possam dar ideias e transmitir opiniões sem temer qualquer tipo de retaliação ou preconceito. Todas as equipas devem trabalhar estes aspetos todos os dias.

Sabendo que os comportamentos são influenciados pela forma como pensamos e falamos para nós ou para os outros, devemos ter um cuidado especial na maneira como articulamos o nosso diálogo interno e para com os outros. Palavras mal ou bem aplicadas podem gerar impulsos positivos ou negativos influenciadores de comportamentos alinhados com a mensagem para o bem e para o mal.

Por fim, algo muito importante é que todos conheçam o seu papel na hora de lutar por um resultado ou meta. Acredito que conhecer bem a missão conduz a um estado de menor ansiedade perante a adversidade e aumenta o foco no objetivo. Conhecer os adversários e o plano para os vencermos é um fator determinante para reduzir o medo de os defrontar. Isto só se consegue com trabalho e compromisso constantes.

*PAULO JORGE PEREIRA, natural de Amarante, aos 17 anos já treinava a classe de andebol infantil no Clube Desportivo de Portugal (CDP), no Bonfim. Enquanto jogador passou pelo Salgueiros, Sanjoanense, Leixões e Boavista. Foi treinador principal do FC Porto, treinou em Espanha, na Roménia, em Angola e na Tunísia com obtenção de vários títulos nacionais e continentais. Licenciou-se em 1995 na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física (FCDEF) – atual Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP). Selecionador Nacional de Andebol desde 2016, quebrou o paradigma conformista em que o andebol navegou durante muitos anos, conseguindo impor uma qualidade de jogo que levou a equipa nacional ao seu melhor resultado de sempre, no Europeu de 2020 e aos Jogos olímpicos de Tóquio em 2021.

Paulo Pereira, selecionador nacional. Foto: FPA

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