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Olímpio Coelho: ainda vale a pena falar de ética e valores no desporto?

Foto: IPDJ

Por Olímpio Coelho (antigo treinador de basquetebol e professor de Pedagogia do Desporto na Faculdade de Educação Física e Desporto da Universidade Lusófona)

1. Em 1989, Jorge Adelino Soares interrogava-se, em artigo publicado na Revista Horizonte n.º 34: “Valerá a pena falar de Espírito Desportivo?”, identificando, na realidade de então, desvios significativos aos valores e à ética no desporto, mas dando resposta positiva à pergunta formulada.

2. Recentemente, José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico de Portugal, em crónica publicada no jornal Record, de 15 de julho de 2022, manifestava a sua apreensão quanto ao facto do “…lado virtuoso do desporto…” estar a ser fortemente adulterado, “…invadido por episódios de manipulação de resultados, de apostas ilegais, de uso e tráfico de drogas, de infiltração criminosa, de corrupção, de tráfico de menores, de fraude fiscal, de branqueamento de capitais ou tráfico de influências que o usam para fazer florescer proveitos de origem criminosa”. Sem esquecer, acrescentamos nós, as múltiplas situações de violência verbal e física, que correntemente se registam em todos os níveis de prática, com projeção preocupante na vertente infantojuvenil.

3. Entre estes dois testemunhos medeiam mais de três décadas, no decorrer das quais foram desenvolvidas campanhas incidindo no espírito desportivo, publicados um número considerável de textos alusivos ao tema e realizado, em Oeiras, em 1989, um Seminário Internacional. Por outro lado, o Programa Nacional de Formação de Treinadores (PNFT), engloba a unidade curricular Ética no Desporto e, ativo desde 2012, o Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED) tem promovido, neste domínio, um número significativo de ações de diverso tipo.

4. Os testemunhos em causa evidenciam problemas que, no período temporal considerado, apesar das iniciativas referidas, pouco mudaram e que, inclusive, em vários aspetos, se aprofundaram negativamente, em quantidade e intensidade. Por outro lado, do ponto de vista discursivo, encontramos, a par e passo, referência à importância de salvaguardar os valores e a ética no desporto. Discurso que se afigura, em geral, como mera retórica de conveniência, e que a realidade, excetuando alguns exemplos de boas práticas, desmente em pleno. Discurso cujo conteúdo ninguém nega, mas em que poucos acreditam e ainda menos praticam. Somos assim induzidos a questionarmo-nos sobre as razões desta relativa ineficácia e da ampla discrepância entre o discurso e a prática, traduzindo uma evidente resistência à indispensável mudança de mentalidades.

5. Identificar as origens das discrepâncias descritas é uma tarefa suscetível de múltiplas abordagens, mas a limitação de espaço obriga-nos a restringir esta reflexão, salientando as duas razões que consideramos, neste tema, nucleares: o comportamento ético no desporto como um problema cultural e social e o treinador(a) como figura central do processo desportivo.

5.1. Sendo o desporto amplamente influenciado pelo contexto social, cultural, educativo e cívico em que decorre, o comportamento ético no desporto é, em primeiro lugar, um problema cultural e social. Por isso, fomentar a ética no desporto, numa sociedade em que a cultura, a educação e o civismo evidenciam lamentáveis lacunas, não é expectável que seja uma tarefa de fácil execução e que a sua promoção seja uma realidade digna de registo. Assim, sem se adotar, efetivamente, uma perspetiva cultural e social do desporto, considerando-o, em primeiro lugar, ao serviço do indivíduo e da sociedade, e não tanto de outros interesses, nomeadamente os económicos, difícil será mobilizar em plenitude os valores e a ética que deveriam vigorar na sociedade o que, infelizmente, não ocorre de forma substantiva.

5.2. Ao treinador(a), como figura central do processo desportivo, cabe a responsabilidade de transmitir os valores éticos, exercendo ação pedagógica, de influência, continuada e persistente, sobre instituições, praticantes, encarregados de educação e adeptos. O desporto, pela sua natureza intrínseca, apela ao rigor, autodisciplina, organização, cumprimento de regras, respeito pelo outro, compromisso, responsabilidade, cooperação, superação, assumindo-se como instrumento potencial de formação, educação e desenvolvimento, nomeadamente de crianças e jovens. Todavia a aproximação a estes valores depende dos responsáveis pelas atividades, devendo o treinador(a) ser a primeira personagem a assimilar e manifestar, de forma convicta e consistente, um comportamento ético, sendo e dando o exemplo, o que, com considerável frequência, não acontece. Assim, estes dois eixos que deviam constituir-se como facilitadores da promoção dos valores e da ética no desporto, antes constituem, nas condições referidas, origem de significativos desvios aos mesmos.

6. O segmento infantojuvenil do desporto, onde tudo começa, não pode deixar de ser um problema de política de juventude, logo uma responsabilidade do Estado, incompatível com uma atividade exclusivamente autorregulada pelo movimento associativo desportivo, que tende a fazer vista grossa aos desvios que se verificam, normalizando-os, atitude consubstanciada na expressão comum são coisas do desporto. Estas circunstâncias sugerem que a vertente infantojuvenil da prática desportiva deveria ser sujeita a uma regulação e escrutínio regulares, quanto ao modo como decorre, por parte das instituições responsáveis, não só do movimento associativo, mas também governamentais.

7. Os valores e a ética no desporto obrigam a considerar a formação do praticante como um processo a longo prazo, evitando a especialização precoce, que fomentando a tendência para assumir o resultado, a vitória, como o principal objetivo, promove desvios significativos aos princípios e valores éticos que, desejavelmente, se perseguem.

No desporto estão sempre presentes, de forma indissociável, dois fatores: a aprendizagem/evolução dos praticantes e o resultado desportivo, devendo prevalecer, no desporto infantojuvenil, a prioridade do primeiro sobre o segundo, sem esquecer que o resultado é sempre importante, qualquer que seja o escalão etário. A inversão desta prioridade, convida a negar os valores que fundamentam o comportamento ético, fomentando o desvio às boas práticas nos planos metodológico e pedagógico, comprometendo o desenvolvimento racional dos atletas e, por extensão, o desenvolvimento desportivo em geral e de cada modalidade em particular.

8. Assim, à pergunta inicial que titula esta breve reflexão, em alinhamento com Jorge Adelino Soares, respondemos que sim, faz todo o sentido falar, e cada vez mais, dos valores e da ética no desporto como contributo para a valorização social deste, mas também como suporte decisivo ao desenvolvimento dos praticantes e, por consequência, do desporto nacional, tendo, todavia, em conta, que tais propósitos, enfrentam duas limitações:

8.1. Os desvios aos valores e à ética no desporto, condicionados pelo contexto social e cultural em que este se insere, configuram-se como sucedâneos dos desvios aos valores e ao comportamento ético na sociedade. Só mudanças nesta, na mentalidade dominante, possibilitarão agilizar a mudança, num sentido efetivo, do comportamento ético no desporto.

8.2. Da mera retórica resultam poucas consequências positivas, consistentes e impactantes: o comportamento ético no desporto, embora alicerçado em palavras forja-se e evidencia-se, essencialmente, na prática, no treino e na competição, no experienciar dos obstáculos e dificuldades, no ganhar e no perder, no sucesso e insucesso, que só se compreendem como conceitos interdependentes e relativizados, e no modo como com eles se convive. Assim, conscientes, por um lado do impacto dos valores e da ética, particularmente na sua vertente infantojuvenil e, por outro, das limitações com que se confronta a sua promoção evitaremos assumir, sobre eles, uma visão cândida e romântica incompatível com a realidade.

E terminamos recorrendo, de novo, a José Manuel Constantino: “Se não soubermos preservar o desporto, se formos incapazes de cuidar dos seus valores e princípios fundamentais, se não salvaguardarmos a sua integridade, se o não colocarmos ao serviço do desenvolvimento social e humano, todo o seu valor formativo se perde.”

 

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