30 de Setembro 2022 08:20
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O exemplo do Método TOCOF no treino de jovens futebolistasExclusivo 

Foto: Metodologia TOCOF/Facebook

Por Valter Pinheiro (ISCE – Instituto Superior de Lisboa e Vale do Tejo/Metodologia TOCOF) e Bruno Baptista (ISEC – Instituto Superior de Educação e Ciências/Metodologia TOCOF)

Introdução

O futebol é hoje uma das maiores indústrias a nível mundial, movimentando astronómicas quantias de dinheiro, pelo que a paixão intrínseca pelo jogo, isto é, aquilo que outrora se designava de ‘amor à camisola’, deu hoje lugar à procura de contratos que garantam uma independência financeira de jogadores e seus familiares, treinadores, dirigentes, agentes e todos os demais envolvidos nesta modalidade.

Face ao anteriormente exposto, não é de estranhar que a pressão, hoje realizada realizada sobre os jovens praticantes de futebol por pais, treinadores e agentes, seja cada vez maior, já que a criança é vista como a ‘galinha dos ovos de ouro’. Por isso, o ensino e treino do futebol, na atualidade, é substancialmente diferente daquele que antes ocorria, isto é, há 30 anos era dado aos jovens praticantes a possibilidade de jogarem de modo autónomo e livre com pouca interferência dos adultos, todavia, no contexto atual, impera a implementação de métodos de treino umbilicalmente ligados aos dos adultos.

Que riscos estamos a correr? Que implicações terá esta abordagem na vida desportiva e social das nossas crianças? Parece-nos claro que, em muitos contextos, se está a cair no radicalismo de uma especialização precoce.

O que é a especialização precoce?

É consensual considerar-se que estamos perante um processo de especialização precoce quando as crianças se encontram a participar de forma exclusiva e intensa numa só modalidade, ao longo de um período superior a oito meses num ano, não realizando qualquer outra atividade mais (Difiori et al., 2016).

No caso concreto do futebol, isto significaria sujeitar uma criança a quatro ou cinco treinos semanais intensos, entre setembro e junho, sem que a mesma participasse numa qualquer outra modalidade.

Quais as consequências da especialização precoce?

As consequências decorrentes de um processo de especialização precoce são extremamente nefastas para a saúde das crianças, envolvendo implicações de ordem física e mental, designadamente, lesões graves por sobre solicitação, abandono precoce da prática desportiva, depressão e ansiedade, redução da vida social e dependência de drogas.

Quem são os responsáveis diretos e indiretos pela especialização precoce?

Vários são os responsáveis pela implementação deste processo, todavia, no âmbito deste artigo destacaremos os treinadores e os pais. Muitos treinadores, com a firme expetativa de chegar ao Alto Rendimento, utilizam as crianças que treinam, como se estas se tratassem de degraus que os levarão ao topo da pirâmide do sucesso.

Os pais, sofrendo da “Síndrome do Filho Clone”, (Pinheiro, 2017) veem neles uma segunda oportunidade divina para verem cumpridos os seus sonhos de infância que foram gorados, isto é, os pais transferem para as crianças as suas próprias expectativas.

Assim, treinadores e pais, na busca de verem suprimidas as suas ânsias de sucesso, acabam por atropelar a infância das crianças.

De que forma deve, então, processar-se a formação de jovens futebolistas?

Formação de atletas e longo prazo

Bompa (2007) propõe uma formação de atletas a longo prazo, começando este processo com uma fase de iniciação entre os seis e os dez anos. Nesta fase, deve procurar-se um desenvolvimento multilateral, através da aprendizagem de múltiplas habilidades tais como, correr, saltar, mudar de direção, subir, descer, rastejar, lançar, agarrar, equilibrar-se, entre outros. Este facto implicaria a participação em múltiplas atividades em detrimento de participar exclusivamente numa, tal como preconizado na especialização precoce.

Ao treinador caberá criar condições para que as crianças possam desenvolver todas as competências anteriormente elencadas, criando uma clima de treino potenciador de aprendizagem, isto é, um clima positivo de reforço constante das aprendizagens das crianças De seguida, abordaremos o Método TOCOF, enquanto proposta pedagógica para a formação de futebolistas a longo prazo (Pinheiro & Baptista, 2017).

O que é o Método TOCOF?

TOCOF é um acrónimo que designa Treino de Otimização das Competências do Futebolista, isto é, um método que preconiza desenvolver todas as ferramentas necessárias para a prática do futebol. O termo otimização, quando mal interpretado, poderá remeter-nos para uma especialização precoce, contudo, aquilo que o Método TOCOF preconiza é exatamente o contrário.

Quais são, então, as competências necessárias para se jogar futebol?

Competências físico-motoras, competências técnicas, táticas, psicológicas e morais.

Assim o Método TOCOF é constituído por seis pilares que dão resposta ao desenvolvimento das competências acima elencadas e que, de seguida, passaremos a escalpelizar.

Pilar I – Diversão

Muitas crianças abandonam precocemente a prática desportiva devido a inúmeros fatores dos quais se destacam a ausência de diversão no treino. (Filho & Garcia, 2008) Deste modo, é nossa preocupação criar um clima prazeroso, onde a diversão deverá assumir-se como um eixo estruturante do exercício de treino. Para que tal suceda, damos enorme relevância ao Exercícios de Treino e ao Comportamento do Treinador (Pinheiro & Santos, 2017).

No que diz respeito ao exercício de treino, procura-se que o mesmo suscite motivação e entusiasmo nos atletas. Para que isso aconteça é fundamental:

  • A existência de uma elevada taxa de sucesso na realização do exercício;
  • Variabilidade das tarefas de treino, ou seja, diversificar os exercícios realizados ao longo do treino;
  • Elevado tempo de prática motora para potenciar a aprendizagem;
  • No que concerne ao comportamento do treinador, destaca-se a capacidade de ser um bom comunicador, passando um mensagem impactante ao grupo por si liderado. Nesse sentido, é importante compreender que a comunicação não se resume apenas àquilo que dizemos, mas, em grande medida, ao que fazemos, dando-se particular relevância ao entusiasmo e alegria com que se leva a efeito o processo de treino.

Pilar II – Desenvolvimento Multilateral

Entendemos que na infância deve ser potenciado o desenvolvimento dos Movimentos Fundamentais (Cordovil & Barreiros, 2014), pois é neste período que se encontram as “janelas de oportunidade” para o desenvolvimento destas competências, ou seja, estes são os períodos ótimos para semear estes estímulos, pois colher-se-ão mais frutos. Quando falamos em ações motoras fundamentais, referimo-nos a:

  • Correr (bem) para a frente, para trás, para os lados e com distintos ritmos;
  •  Saltar com os dois apoios ou apenas com um deles;
  • Rastejar, subir e descer;
  • Efetuar as ações motoras passe, receção e remate com ambos os pés e mãos;
  • Associar diferentes movimentos como correr e em seguida saltar, ou correr para a frente e mudar de direção.
  • Analisar trajetórias aquando de um passe;
  • Analisar movimentos de companheiros e adversários.

Trata-se de realizar um Programa Literacia Corporal que começamos a desenvolver no escalão TOCOF Kindergarten (3-5 anos), isto é, em crianças em idade pré-escolar.

Pilar III – Relação com a bola (técnica)

O futebol assume-se como um jogo relativamente difícil de aprender porque o controlo do móbil é executado por uma superfície corporal que não tem a capacidade de realizar a preensão, ao contrário do que sucede com a mão.

Pelo explanado anteriormente, deduz-se da importância do treino da relação com a bola, porquanto esta competência se assume como pedra angular no processo de aprendizagem do jogo. De facto, a bola dever-se-á assumir como um prolongamento do pé da criança.

Uma vez mais reforçamos que na atualidade existem correntes metodológicas que defendem que a aprendizagem das ações técnicas deve ser realizada de modo contextualizado, isto é, em situações de jogo. Não estamos de acordo com essa premissa, sobretudo nos escalões de Kindergarten (sub-6), Petizes (sub-7) e Traquinas (sub-9), onde defendemos uma relação ‘eu e a bola’, per se.

Pilar IV – Tomada de Decisão

Nos escalões de formação de futebol é usual ver-se o treinador a dar indicações constantes aos seus jogadores, dizendo-lhes a cada instante o que devem fazer e como devem fazê-lo. Compreendemos que em idades precoces seja relevante o treinador manter-se interventivo durante o jogo, ajudando as crianças a organizarem-se. No entanto, aquilo que muitas vezes se passa é um ato manipulador, onde o jogador se assume como um elemento acrítico, cumprindo estritamente as recomendações do técnico.

A este propósito lembramos que o jogo de futebol, tal como a vida, implica tomar decisões a todo o momento, num contexto imprevisível. Em alguns momentos parece-nos que o treinador de futebol infanto-juvenil procura transformar o mesmo num videojogo, manipulando os jovens praticantes, tal qual o executa num jogo virtual.

Será certamente esta a razão que leva um número significativo de técnicos a investirem tanto tempo em jogadas estereotipadas, repetidas vezes sem conta, com a expectativa de vê-las reproduzidas em jogo (Pinheiro, Costa, Baptista & Sequeira, 2012).

É por isso que defendemos que ensinar a jogar, implica criar condições e situações de treino que possibilitem ao atleta aprender a decidir autonomamente.

Importa então compreender aquilo que, em nosso entender, deverá ser proporcionado aos praticantes, aquando da aprendizagem do jogo de futebol.

Se partirmos da premissa que o futebol é um jogo de invasão (procuramos entrar no espaço do adversário), caracterizado pelas relações de cooperação/oposição e que esta relação é geradora de imprevisibilidade e, se pensarmos ainda que pretendemos ajudar os nossos praticantes a resolver os problemas que a competição lhes impõe, rapidamente concluímos que é nosso dever pedagógico dotar os nossos jogadores de ferramentas que lhes permitam decidir a cada momento o que deve ser feito e como se vai fazer, no fundo, ensinar a decidir.

Em nosso entender, um enorme facilitador deste processo passará pelo ensino dos princípios gerais e específicos do jogo (do ataque e da defesa) que mais não são do que guias comportamentais, ou seja, sinalizam qual deverá ser a nossa ação em cada momento.

Pilar V – O jogo ‘Formal’

O jogo é o pilar que motiva a criança a praticar futebol, pois nele estão contidos todos os ingredientes que tornam esta modalidade tão atrativa, isto é, o adversário, os companheiros, a baliza, o golo, em súmula, a competição.

Deste modo, o jogo deve ocupar uma parte significativa da sessão de treino, pois não só se assume como o principal catalisador motivacional, mas também como o melhor estímulo para aprender.

Pese embora no pilar ‘tomada de decisão’ as formas de jogo reduzido se constituírem já como ‘jogos’, em nosso entender os mesmos não substituem o Jogo ‘Formal’, jogado sobre duas balizas, contendo todos os ingredientes que estimulam as crianças.

Todavia, a que tipo de jogo formal nos estamos a referir?

Para cada escalão existe um Jogo ‘Formal’ preconizado, ajustado em termos de espaço, número de atletas, tempo de duração e regras.
A título de exemplo:

  • Petizes – Gr + 3×3+ Gr, jogado num espaço de 20mx15m e todos passam pela posição de guarda-redes;
  • Traquinas – Gr + 4×4 + Gr, jogado num espaço 40mx20m e todos passam pela posição de guarda-redes;
  • Benjamins e Infantis – Gr + 6×6 + Gr (Dimensões Oficiais).

No que concerne à adoção de regras especiais, sobretudo nos escalões de Petizes e Traquinas, preconizamos o lançamento com o pé e uma área de não pressão ao adversário, aquando do pontapé de baliza (Pinheiro, Baptista, Malico Sousa, Printes, Costa, & Sequeira, 2014).

Pilar VI – Os Pais
É importante salientar que o processo de aprendizagem de futebol se destina a crianças e que estas estão legalmente dependentes dos seus pais. Por isso, no nosso método, acreditamos que os pais devem ser fortemente envolvidos no processo de aprendizagem dos seus filhos, pois esta ligação assumir-se-á como um fator de inegável suporte à qualidade da prática desportiva das crianças (Pinheiro, Baptista, Costa & Printes, 2014).

Com o objetivo de favorecer a ligação dos pais com o clube, realizamos as seguintes atividades: reunião de início de época, atividades desportivas dirigidas aos pais, workshop temáticos, festa do dia do pai e da mãe, encontro de encerramento da época desportiva e a Claque Mancha Laranja. (Baptista & Pinheiro, 2021)

Conclusões
Especializar precocemente as crianças na prática do futebol, através de treinos regulares e intensos, onde estas apenas experimentam uma posição, é uma das formas mais eficazes de promover o abandono precoce da prática desportiva.

Ao treinador de jovem, aconselhamos a ter paciência, pois os frutos do seu trabalho ver-se-ão a longo prazo e não no imediato.

O foco deverá estar no desenvolvimento das competências de cada praticante e não no resultado desportivo que a equipa obtém ao fim de semana no jogo.

Os treinadores que têm o seu foco no rendimento imediato e a curto prazo, deverão dedicar-se ao treino com adultos, já que não reúnem perfil para treinar jovens.

Este artigo é parte da edição n.º 1 da nossa revista, que contém Dossier “A Preparação do Atleta a Longo Prazo”. O material completo está disponível para os assinantes. Se ainda não é, saiba como fazer para integrar o nosso grupo de leitores e colaborar com o nosso projeto.

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