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O “desabrochar” do comportamento criativo: modelo de desenvolvimento para a criatividade no desporto

Foto: Federação de Ginástica de Portugal

Por Sara Santos – Docente na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e na Universidade da Maia (ISMAI)

RESUMO
Na última década, diversos investigadores têm procurado compreender os fatores relacionados com o envolvimento desportivo que mais contribuem para o desenvolvimento da criatividade nos jogos desportivos coletivos. Desta forma, o presente estudo teve como objetivo propor o ‘Modelo de Desenvolvimento para a Criatividade no Desporto’, para orientar as práticas dos treinadores. Os pressupostos sugeridos pelo modelo colocam em evidência a prática diversificada, a literacia física, a pedagogia não linear e o pensamento criativo. Nas etapas iniciais de desenvolvimento desportivo, os treinadores devem privilegiar a prática diversificada, o jogo deliberado e um desenvolvimento sustentado do repertório motor generalizado. Por sua vez, nas etapas subsequentes, a prática deliberada ganha progressivamente maior destaque, assim como a integração de variabilidade no processo de treino. Não obstante, durante todas as etapas de desenvolvimento, deve ser privilegiado o ensino através do jogo e a utilização de diversos constrangimentos para desencadear a emergência de comportamentos criativos. Estas abordagens estimulam os jogadores a explorar várias possibilidades de ação no treino e em jogo, tornando-os mais adaptativos, imprevisíveis e inovadores. Em geral, o ‘Modelo de Desenvolvimento para a Criatividade no Desporto’ sugere um conjunto de abordagens promissoras que conduzem a uma melhoria do processo criativo dos jogadores e que estão alinhadas com a sua preparação desportiva a longo prazo Palavras-chave: comportamento criativo, prática diversificada, constrangimentos, variabilidade, adaptação.

Introdução
A evidência recente revela que a criatividade pode ser desenvolvida mediante determinadas condições de prática (Memmert, 2015). Porém, a relação entre o desenvolvimento da criatividade e a participação desportiva a longo prazo permanece por explorar. De facto, a capacidade dos jogadores expressarem comportamentos criativos em jogo é apontada, pelos treinadores, como sendo altamente valorizada no contexto desportivo. Assim, torna-se relevante dotar os jogadores de competências que permitam lidar e superar os desafios inerentes à imprevisibilidade do jogo. Desta forma, compreender como os treinadores podem desenvolver a criatividade dos jogadores é uma questão primordial que é amplamente debatida entre a comunidade científica.

Suportados pelas ciências cognitivas, Sternberg e Lubart (1999) definem a criatividade como a capacidade de solucionar um problema de forma original e útil. No âmbito desportivo, o presente artigo descreve o comportamento criativo como a capacidade de produzir soluções apropriadas, imprevisíveis, raras e autênticas para resolver um problema de treino ou jogo, considerando as exigências do ambiente. Mais recentemente, a adaptabilidade ao ambiente tem sido apontada como um requisito fundamental para desenvolver o potencial criativo dos jovens jogadores (Rasmussen & Østergaard, 2016).

Como tal, os treinadores devem fomentar a criatividade do ‘tipo P’ (pessoal) nas suas práticas. Esta expressão criativa está relacionada com a capacidade dos jogadores explorarem e gerarem novas oportunidades de ação (affordances), de se auto desafiarem e superarem as suas limitações pessoais (Boden, 1994). Assim, a maioria dos comportamentos realizados é nova para eles próprios, mas não necessariamente reconhecida pela equipa ou pela sociedade. Para promoverem a expressão criativa do ‘tipo P’, os treinadores devem ‘cultivar’ um ambiente com um clima de desenvolvimento positivo que favoreça a abertura a novos desafios e inspire confiança para os jogadores estarem comprometidos com rotinas de treino pouco familiares. Paralelamente, as suas práticas devem fomentar a emergência das quatro componentes criativas: as tentativas, a fluência, a versatilidade e a originalidade das ações.

Modelo de Desenvolvimento para a Criatividade no Desporto

Para garantir um desenvolvimento longitudinal do comportamento criativo, este estudo apresenta o ‘Modelo de Desenvolvimento para a Criatividade no Desporto’, que comporta cinco etapas incrementais: 1) Etapa Iniciante (dos 2 aos 6 anos de idade); 2) Etapa Explorer (dos 7 aos 9 anos); 3) Etapa Illuminati (dos 10 aos 12 anos); 4) Etapa Criador (dos 13 aos 15 anos); e 5) Etapa Ascensão (superior a 16 anos). Todavia, o desenvolvimento da criatividade é um processo holístico que sustenta interações complexas entre várias abordagens. Neste seguimento, os pressupostos sugeridos pelo modelo representado na Figura 1 consideram quatro abordagens prioritárias, colocando assim em evidência: (a) o percurso desportivo continuum entre a prática diversificada e a especialização); (b) a literacia física (aprendizagem de habilidade fundamentais); (c) a pedagogia não linear que comporta a teoria dos constrangimentos, o modelo dos jogos para a compreensão (TGfU) e a aprendizagem diferencial (inclusão de variabilidade na prática), e (d) o pensamento criativo (incorporar tarefas relacionadas com o desenvolvimento do pensamento divergente e convergente). A contribuição individual e integrada das abordagens supracitadas garante as condições ideais para que os treinadores fomentem um processo criativo duradouro e sustentado.

Preparação Desportiva do Jogador

A investigação empírica no âmbito da criatividade tem demonstrado que uma prática diversificada/jogo deliberado nas etapas iniciais da formação desportiva pode, inclusivamente, revelar-se mais benéfica para desenvolver o potencial criativo dos jovens jogadores (Greco et. al., 2010; Memmert, 2006; 2010; Santos, et al., 2016) e a sua literacia física (Lubans et al., 2010). A literacia física pode ser caracterizada como a motivação, a confiança, a competência física e o conhecimento necessário para compreender os benefícios de um estilo de vida ativo e saudável (Lubans et al., 2010). A prática diversificada contempla uma participação em diversos desportos e um amplo envolvimento em jogo deliberado. O jogo deliberado revela-se uma prática voluntária, divertida e motivante que proporciona uma gratificação imediata e pretende desenvolver habilidades motoras gerais, estando, assim, mais centrada no processo (experiências formativas) em detrimento do resultado (performance). Inclusive, é uma atividade regulada maioritariamente pela própria criança, em ambientes informais (por exemplo, a rua) (Coutinho et al., 2016). Por sua vez, a especialização desportiva está associada a um comprometimento com numa modalidade desportiva ou posição específica, envolvendo uma prática deliberada, uma vez que as atividades praticadas são altamente exigentes, específicas e estruturadas, procurando alcançar resultados a curto prazo (Coté & Erickson, 2015). Neste seguimento, o estudo de Memmert e colaboradores (2010) analisou as experiências prévias desportivas de setenta e dois jogadores criativos de diversas modalidades. Os resultados indicam que o percurso dos mesmos se diferencia pelo facto de dedicarem consideravelmente mais tempo ao jogo deliberado durante as etapas iniciais de formação comparativamente ao percurso dos jogadores não criativos. Da mesma forma, Roca e Ford (2021) demonstraram recentemente que jogadores de futebol altamente criativos acumulavam mais tempo em atividades informais. Neste sentido, este tipo de prática proporciona ambientes de aprendizagem desafiantes, imprevisíveis e ajustados às necessidades dos jogadores, conduzindo à exploração de novos comportamentos.

A importância dos constrangimentos e da variabilidade para fomentar o potencial criativo

Paralelamente, o ‘Modelo de Desenvolvimento para a Criatividade no Desporto’ promove a utilização de uma pedagogia não linear que, por sua vez, é colocada em prática através da implementação de constrangimentos nas tarefas de treino e, assim, proporcionar ambientes desafiadores que contribuem para a evolução progressiva dos jogadores. Os constrangimentos aplicados pelos treinadores podem ampliar ou limitar o número de possibilidades de ação disponíveis e, consequentemente, a probabilidade de surgir um comportamento inovador. Do ponto de vista prático, jogar com toques limitados (1 ou 2 toques) no futebol aumenta afluência das ações, contudo, condiciona a exploração de novos comportamentos técnico-táticos. Por sua vez, jogos reduzidos em situação de igualdade numérica promovem o surgimento de novas ações, enquanto que a inferioridade numérica (3×4 e 4×5) permite acentuar este comportamento (Torrents et al., 2016). Não obstante, a integração de variabilidade adicional nos jogos reduzidos (i.e., aprendizagem diferencial) expõe os jogadores a cenários variados e completamente imprevisíveis (por exemplo, variar dinamicamente o número de jogadores, utilizar diferentes tipos de bolas, receber ou passar a bola de forma diferente, condicionar a circulação de bola em diferentes zonas do campo, jogar com obstáculos no campo ou incluir constrangimentos corporais), permitindo, assim, explorar diferentes estratégias para criar novas oportunidades de fi nalização (Schöllhorn et al., 2012; Santos, et al., 2018).

Programas suportados pelo Modelo Apesar do presente artigo não contemplar o programa Skills4Genius, cujo estudo foi publicado no ano seguinte, importa destacar que este programa foi desenvolvido considerando as diretrizes da Etapa Explorer do ‘Modelo de Desenvolvimento para a Criatividade no Desporto’ (Santos et al., 2017). O respetivo programa tem como objetivo desenvolver as competências socioemocionais como a adaptabilidade, a resolução de problemas e o pensamento criativo, assim como a criatividade motora. Desta forma, a Figura 2 ilustra algumas das estratégias utilizadas numa unidade de treino de futebol, privilegiando a utilização de constrangimentos e a inclusão de variabilidade nos jogos reduzidos.

Conclusões
Importa salientar que de acordo com o ‘Modelo de Desenvolvimento para a Criatividade no Desporto’ o ‘desabrochar’ do comportamento criativo é um processo de desenvolvimento a longo prazo mediado por um contexto de prática que permita aos jogadores explorem novas possibilidades de ação em determinadas situações (treino ou jogo). Todavia, durante as etapas iniciais de formação desportiva, devem ser privilegiadas experiências sustentadas no jogo deliberado, em detrimento de um foco exclusivo na prática deliberada. Concomitantemente, os treinadores devem incorporar variabilidade nas suas rotinas de treino, possibilitando que os jogadores descubram autonomamente formas únicas de utilizarem as suas competências e fomentem as suas capacidades adaptativas. Por fi m, o desenvolvimento da criatividade deve ser reconhecido como uma parte integrante da filosofia de treino de um treinador e não ser tratada comoum elemento adicional, promovido apenas durante uma parte da sessão (aquecimento). Estes esforços combinados podem ser determinantes para elevar a qualidade do processo de preparação desportiva e conduzir o desempenho dos jogadores para um patamar de excelência.

SARA SANTOS, é doutorada em Ciências do Desporto pela UTAD e Mestre em Ensino da Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário. Investigadora do CIDESD e Docente na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e na Universidade da Maia (ISMAI). Foi galardoada com o prémio Ruth B. Noller 2018, conferido pela Creative Education Foundation, sediada nos EUA, esta distinção reconhece a investigação emergente no domínio da criatividade, a nível mundial. Mais recentemente, Sara Santos foi distinguida com o Prémio Ciências do Desporto do Comité Olímpico de Portugal e com o Prémio Investigador Jovem 2021 pela UTAD. A Fundação Calouste Gulbenkian selecionou o programa Skills4Genius para integrar a 1ª edição das Academias do Conhecimento, sendo agora considerado uma Metodologia de Referência.

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