30 de Setembro 2022 07:58
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Miguel Vasconcelos e o XPS Network: o software inventado para treinadoresExclusivo 

Foto: D.R.

As plataformas de software para treinadores estão a ganhar a batalha aos papéis. Albergam milhares de dados facilmente localizáveis, ajudam no planeamento e execução do treino, oferecem uma visão integrada sobre o perfil físico e técnico do atleta. Miguel Vasconcelos, responsável da XPS Network para os mercados português e brasileiro, explica à SportMagazine como está desenhada uma plataforma que já tem mais de 30 mil clientes em todo o mundo. Quinhentos estão em Portugal.

Esta entrevista, aqui publicada na versão online, foi veiculada primeiramente na edição número 1 da revista SportMagazine, exclusivamente para assinantes. Se ainda não é, saiba como fazer para integrar o nosso grupo de leitores e apoie o nosso projeto de valorização do desporto português.

SportMagazine (SM) – Em que contexto nasceu a XPS e a que desempenho corresponde?

Miguel Vasconcelos (MV) – A plataforma foi concebida por treinadores para treinadores, com o objetivo de ajudar os clubes e seus atletas a poderem gerir melhor os seus recursos humanos em torno das equipas multidisciplinares. Nasceu em 2001, desenvolvida por um islandês e um sueco – um deles treinador -, que se depararam com uma série de problemas relacionados com a gestão e organização dos recursos humanos. Os fundadores desta tecnologia quiseram criar algo que gerisse essa ligação e que também fosse uma plataforma flexível aos vários desportos, que além da parte do planeamento e organização, contasse também com a análise de vídeo e construção de apresentações. Outra das dificuldades que se coloca aos treinadores é a comunicação. A ideia de ter uma plataforma que funcionasse em rede, agrupando treinadores, atletas e os diferentes departamentos, foi pioneira e agiliza a comunicação de uma maneira incrível.

SM – Quantos treinadores já a usam?

MV – Cerca de 30 mil em todo o Mundo, diariamente. Em Portugal são cerca de 500 e o crescimento deu-se sobretudo no andebol, sendo a modalidade com mais representação. Praticamente todas as equipas da I divisão masculina e feminina já o usam, mais os selecionadores nacionais e os seus atletas. Imagine o valor que tem agrupar numa plataforma os dados de atletas que acompanham uma parte relevante da sua formação e vida desportiva, desde o treino à performance, da evolução das capacidades e habilidades motoras, dados antropométricos, da velocidade, da resistência, da carga de treino, perceção do esforço, enfim, a variabilidade de todos estes aspetos ao longo do tempo, acompanhados por gráficos de evolução, sem perda de dados ao longo do tempo. Mais, imagine, no futuro, quando um atleta mudar de clube, que essa informação é partilhada. Isto ainda é uma utopia, posso estar a sonhar, mas acredito que chegaremos a este nível, o que só vai facilitar o processo de formação dos treinadores e dos atletas. Comunicação e partilha é a chave.

SM – E para quantos desportos está disponível a XPS? E tem extensões específicas para modalidades diferentes ou é um software universal nesse aspecto?

MV – A plataforma tem um corpo comum adaptável para todas as modalidades. As únicas coisas que mudam são a nível do quadro táctico, pois as animações são específicas para cada modalidade. Os sistemas de análise de vídeo também são específicos e abertos, podendo os seus utilizadores escolher e criar o seu próprio sistema de análise, sem limites. Neste momento temos cinco desportos em Portugal (futebol, futsal, voleibol, andebol e basquetebol) e mais de 20 desportos a nível mundial.

SM – A interoperabilidade é um termo muito em voga. Aplica-se aqui, pois a plataforma promove a conexão entre áreas diferentes embora convergentes para o treino?

MV – Sem dúvida, pois foi desenhada e tem sido desenvolvida para facilitar o trabalho do treinador e das diferentes áreas do treino. Claro que a plataforma estará sempre ligada ao atleta, pois o atleta e a sua evolução é o centro de tudo isto. Se formos melhores treinadores, teremos melhores atletas. Na base é uma plataforma de comunicação e interação. Além de estar desenhada para o computador, também está disponível para dispositivos Android e Apple. Os atletas têm as suas próprias contas, onde têm as suas fotos e todos os seus dados de treino. Podem acompanhar a sua própria evolução (criando responsabilidade ao atleta), podem responder a questionários dos treinadores, por exemplo para que este avalie o estado de prontidão, relacionado fatores como o sono, o stresse, as dores musculares, fadiga e humor, que são vários aspectos que vão influenciar a disponibilidade de treino. Para um treinador, ter essa informação antes, sequer, de o atleta chegar ao treino, é fundamental.

SM – É o fim dos papéis?

MV – Talvez não esteja longe. Todos nós escrevemos em papéis. O amontoar de capas, memorandos, análises e comentários sempre me criou, enquanto treinador, dificuldades de operação e até de busca do papel específico. Se queria fazer um exercício que já tinha anotado antes, onde é que estava o papel? Ou o caderno? Ou a folha onde tomei umas notas rápidas? O XPS ajuda a que essa informação possa ser localizada com facilidade e usada quando necessária. Eu posso adicionar um exercício tirando uma foto a todas essas folhas de notas e adicionar na plataforma. Posso gravar um vídeo de um determinado treino ou exercício e em 5 ou 10 segundos dá para identificar. Depois, quando for oportuno, posso acrescentar notas descritivas ou técnicas. Além disso, posso construir um desenho tático dentro da plataforma, com os diagramas ou animações que achar úteis e adequadas. Como exemplo, podemos construir os diferentes meios táticos, modelo de jogo, podendo partilhar com os atletas que podem consultar sempre que quiserem nos seus telemóveis, sem ocupar espaço nos dispositivos dos mesmos, pois está na cloud dos servidores da XPS Network – Sideline Sports.

SM – O software também faz análise de vídeo?

MV – Sendo fundamental na formação, a nível das correções técnicas, é fundamental no alto rendimento para avaliar questões táticas e de performance. O próprio treinador pode partilhar as análises de vídeo e jogos completos, tudo isto de forma simples e rápida evitando transferência de ficheiros pesados que depois têm que ser eliminados.

Foto: D.R.

SM – Os nutricionistas e fisiologistas ou terapeutas também podem carregar dados para a plataforma, para que o treinador também possa consultar esses dados. É uma quantidade sensível de informação. Como está acautelada a segurança?

MV – A conta do treinador é sempre pessoal e intransmissível. Tem o seu e-mail e password e ninguém, a não ser ele, pode aceder. E para tudo o que são dados médicos, lesões, fisioterapia, o XPS adicionou ao sistema, há cerca de dois meses, com autenticação de dois fatores, para acesso específico do gabinete médico. Nessa feature, nem o próprio treinador consegue aceder, se o gabinete médico não permitir.

SM – Este software também já está no ensino superior de desporto?

MV – Sim, temos uma ligação à Escola Superior de Desporto de Rio Maior (ESDRM), permitindo aos alunos utilizarem a plataforma para criarem currículos desportivos. É importante estarmos a ligar a plataforma ao ensino. Todos os cursos da Federação de Andebol de Portugal (FAP) estão também a ser feitos dentro do XPS, sendo a Formação dos Treinadores construída com o apoio do nosso sotfware, para, mais uma vez, facilitar e agilizar o processo de formação, neste caso dos treinadores.

SM – O mundo digital está em constante evolução. Como é que se pode ainda desenvolver a XPS?

MV – Como foi um software que, na origem, foi construído por treinadores, está sempre à procura de melhorias. Ainda recentemente foi acrescentada uma extensão só para a parte médica, como referi, porque muitos treinadores invocavam o que você referiu há pouco sobre os dados sensíveis. E vamos evoluir na aplicação para o tablet durante este ano, com o Live Mode disponível em todos os tablets.

SM – O Miguel é treinador de guarda-redes de andebol na seleção nacional feminina sub-18 e dos seniores do Póvoa AC. Treina o Humberto Gomes, que já representou a Seleção Nacional. Quando vai dar um treino e leva a aplicação, como é que a transfere para a aplicação real?

Foto: D.R.

MV – Posso ganhar tempo. Se colocar o treino visível para o atleta, na própria ativação inicial, orientada ou não, os atletas vão estar mais concentrados e no final da ativação vão poder incidir mais sobre certas áreas que sabem que vão ser mais requisitadas e naquele treino específico. Imagine, por exemplo, que estou a fazer determinado exercício e quero já começar a preparar o próximo. Posso consultá-lo no telemóvel ou tablet, procurando o feedback que pretendo dar aos atletas de forma rápida e sem perda de informação. E se por acaso tiver algum imprevisto, consigo partilhar o treino com os atletas. Ainda agora o Humberto esteve retido em casa
e eu partilhei os treinos para ele fazer em casa, a nível individual.

SM – Cruzou-se com o XPS no papel de usuário/cliente e depois aparece como elemento da administração.
Quer contar essa história?

MA – Eu comecei a jogar andebol com cinco anos no Núcleo de Andebol de Penedono. Mais tarde fui para o AA Águas Santas, no Porto, estudando ao mesmo tempo. Sempre quis ser treinador. Treinei em Inglaterra, como treinador-adjunto e treinador de guarda-redes e quando voltei a Portugal tomei contacto com a XPS. Eu era daqueles clientes insistentes sempre a pedir coisas para resolver problemas e, entretanto, o CEO da empresa contactou-me. Essa ligação foi avançando e, em 2019, convidou-me para ser o representante da plataforma nos mercados português e brasileiro.

SM – Entretanto fundou uma escola de guarda-redes de andebol?

MV – Em 2020 abrimos o primeiro polo no Porto e neste momento já temos três polos. Um na região de Aveiro, outro em Gaia e outro na Maia. Trabalho com o Tiago Sousa, que é o treinador de guarda-redes da Seleção Nacional A feminina de andebol. Estamos a acompanhar atletas da AA Águas Santas, do Gil Eanes, do NA Samora Correia, do CJ Almeida Garrett, FC Gaia. Através da plataforma conseguimos eliminar a distância e comunicar com os atletas. Segundo a literatura da área, o guarda-redes representa 50% de um resultado de um jogo, mas desde os tempos em que comecei a jogar o que via é que os guarda-redes eram escolhidos porque eram os que tinham mais peso, ou os mais altos ou os jogadores que tinham as habilidades motoras mais desenvolvidas. Não havia treinadores de guarda-redes, nem uma preocupação clara nesta área, desde a formação. Eu e o Tiago Sousa temos essa preocupação e fundámos a Goalkeeper Evolution Factory. Hoje temos 27 atletas de diferentes idades.

MIGUEL VASCONCELOS, 30 anos, é desde 2019 representante da XPS Network para Portugal e Brasil. Nasceu em Viseu, cresceu em Penedono, numa família ligada ao desporto, sendo o irmão, Ricardo Vasconcelos o selecionador de Inglaterra e de competições internacionais de andebol da Grã-Bretanha de Andebol. Estudou Educação Física e Desporto no ISMAI e na FADEUP, no Porto. Começou a jogar andebol aos cinco anos, como guarda-redes. Jogou na AA Águas Santas, sempre quis ser treinador e é um apaixonado por gestão e tecnologia. Treinou em Inglaterra e em 2020 fundou uma escola de guarda-redes no Porto. É o treinador-adjunto da Seleção feminina de sub-18 e foi até junho passado o treinador de guarda-redes no Póvoa AC.

Foto: FAP

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