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Francisco Laranjeira, atleta atropelado às vésperas dos Jogos Surdolímpicos, busca recomeço: “Deixarei Portugal orgulhoso”Exclusivo 

Francisco Laranjeira, atleta atropelado antes dos Jogos Surdolímpicos, em recuperação na fisioterapia. Foto: Joaquim Paulino/Divulgação

Faltavam poucos dias para a realização de um sonho que seria a consagração de anos e anos de trabalho. Na véspera de disputar a principal competição da carreira, Francisco Laranjeira viu a possibilidade de se estrear nos Jogos Surdolímpicos, onde deveria disputar as provas dos 5.000 e dos 10.000 metros, ser adiada. O sonho havia sido atropelado. O próprio atleta, na manhã do dia 11 de abril, em Évora, foi atropelado, em plena luz do dia e onde todos os pedestres deveriam estar seguros: na passadeira.

“Eu estava a fazer o treino de manhã e depois ia para o estágio no Algarve [iria iniciar os trabalhos com a Seleção Nacional]. Após o fim do treino, eu ia passar na passadeira e mesmo no fim dela, um senhor foi contra mim com o carro. Eu caí, depois levantei-me assim num instante, o senhor foi a ter comigo, mas eu estava sem aparelhos, um bocado em choque. Senti uma dor forte na perna, depois havia um condutor que começou a buzinar atrás. O senhor voltou para dentro do carro e foi-se embora. E eu tive que ir a pé para casa porque não tinha telemóvel para pedir ajuda”, detalha o atleta.

No acidente, Francisco fraturou o perónio da perna direita, o que o deixou impossibilitado para o resto da época, fora das provas nacionais e internacionais, inclusive dos Jogos Surdolímpicos, que aconteceram no Brasil entre 1 a 15 de maio.

“Na altura, o sentimento foi devastador. Eu vinha a me preparar há muito tempo para uma prova desta importância”, admitiu o atleta que assistiu de casa à competição. “Eu vi as provas. Por acaso, se tivesse competido, pelos meus tempos, eu ficaria bem classificado, no top-5 pelo menos”, garante.

Três meses depois do acidente, o atleta do Grupo Desportivo de Diana fala do episódio com a leveza de quem  está habituado a superar barreiras. Com apenas 30% da audição, leva uma vida como qualquer outra. “Sempre fiz a minha vida normal. Como existem os aparelhos, isso facilita-me para ter uma vida normal. Consigo me comunicar com as pessoas e fazer as coisas normais”, explica, sempre com o sorriso no rosto.

Após muitas sessões de fisioterapia, Francisco Laranjeira já regressou ao ginásio e começou novamente esta semana a fazer os primeiros exercícios. Tudo de maneira leve. “Em termos de saúde, neste momento, sinto-me bem. A recuperação está a correr bem, está melhor do que esperava”, garantiu o atleta de 23 anos. “A partir de setembro, volto a treinar intensivamente como eu treinava antes do acidente porque também não tenho muita pressa e quero evitar lesões. Mas, a partir de agora, já posso começar a fazer corridas curtas”, complementou.

Ainda sobre o acidente, Francisco Laranjeira afirmou que foi comunicado pela polícia que “a queixa foi arquivada por não se ter apurado quem cometeu o atropelamento e não haver testemunhas”, relatou o atleta, dono de uma coleção de conquistas.

Francisco Laranjeira está a contar as horas para o regresso. Foto: D.R.

“Vou deixar também Portugal bem visto e orgulhoso”

Francisco é duas vezes campeão nacional de 10.000 metros Surdos (Coimbra 2021 e Faro 2022); Campeão nacional de 5.000 metros Surdos (Maia 2021); 8º lugar no Campeonato Mundial de atletismo Surdo (Lublin, Polónia 2021), entre outras conquistas.

Natural de Elvas, o atleta é licenciado em Sociologia e frequenta na mesma Universidade de Évora o mestrado de Gestão em especialização em Recursos Humanos. Após começar a carreira no Clube Alvés de Natação, há aproximadamente quatro anos é atleta no Grupo Desportivo de Diana, onde é treinado por João Ferrão, que ainda vê “uma grande margem de progressão” para o seu atleta.

“Pois só há três anos é que começámos a trabalhar neste projeto. E, para além do talento, o atleta revela também um total compromisso e empenho, com o planeamento que definimos o que é determinante para o sucesso”, afirmou. “Acredito na recuperação total do Francisco, que tem sido acompanhado por profissionais competentes nessa área. Temos trabalhado diariamente na sua recuperação com a realização de estímulos adequados à sua condição física e felizmente verificamos que ele está dentro do contexto a progredir no sentido que desejamos”, complementou.

De acordo com João Ferrão, em setembro Francisco Laranjeira estará apto para recomeçar os trabalhos com vista à próxima época desportiva. “Os objetivos são os mesmos desde o início deste projeto, que é trabalhar para o Francisco atingir os níveis em que estava na altura do acidente e no futuro superar esses níveis. Portanto, vamos trabalhar focados nisso e a acreditar que o Francisco vai estar a competir no próximo Campeonato do Mundo de pista Coberta em 2023”, disse o treinador.

Confiante em dias melhores, Francisco Laranjeira afirmou que espera conseguir voltar a fazer os mínimos para as principais competições mundiais. “É o primeiro objetivo, o que não vai ser muito difícil. O meu sonho é como o de qualquer atleta: quero ser campeão olímpico, no meu caso nos Jogos Surdolímpicos. Espero conseguir. Acho que consigo esse objetivo porque vou me preparar muito para essa situação. E vou deixar também Portugal bem visto e orgulhoso”, prometeu.

Franacisco Laranjeira começou a intensificar as atividades físicas sob orientação do treinador, João Ferrão. Foto Joaquim Paulino/Divulgação

Em busca de apoio

Desde que sofreu o acidente e ficou sem poder competir, Francisco Laranjeira viu os patrocinadores ainda mais longe e os apoios que recebia dos organismos desportivos serem encerrados. A conciliar os estudos com o desporto, atleta conta apenas com o recurso que vem dos pais e espera poder reaver a bolsa e espero que novos patrocinadores possam surgir.

“Neste momento, sou patrocinado pela ‘Audição Activa’, através dos aparelhos auditivos que me são facultadas, a título gratuito. Estou a tentar patrocínios em tudo o que seja relacionado com o desporto”, relatou. “Eu tinha o apoio do Comité [Paralímpico de Portugal]. Quando estás no projeto há certos apoios. Agora, neste momento, não tenho resposta do Comité, estou à espera de aprovaram a minha bolsa por causa do acidente”, explicou o atleta.

A nossa reportagem tentou contactar o Comité Paralímpico de Portugal para obter informações sobre a situação do atelta Francisco Laranjeira, mas não obtivemos retorno.

Recorde-se que, nos Jogos Surdolímpicos, Portugal esteve representado por 12 atletas e regressou do Brasil com quatro medalhas conquistadas por Joana Santos (ouro na categoria -57kg de judo); André Soares (bronze no contrarrelógio e ouro na prova por pontos de ciclismo) e Hugo Passos (bronze na categoria -67kg de luta greco-romana).

*A SportMagazine agradece ao Hotel Mard’ar Aqueduto, em Évora, pelo espaço silecionso e fundamental cedido para a realização desta entrevista e parabeniza também a Audição Activa pelo apoio ao atleta Francisco Laranjeira.

Francisco Laranjeira, sempre com o sorriso no rosto, prepara-se para o regresso. Foto: D.R.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Joaquim Paulino

    Julho 16, 2022 at 1:33 pm

    Muito bom parabéns ao jornalista Daniel Leal e a todos os que tornaram possível esta entrevista.

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