30 de Setembro 2022 07:47
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Chema Rodriguez “A promoção do andebol devia fazer parte da formação”Exclusivo 

Foto: SL Benfica

Como central, Chema Rodriguez foi considerado uma sumidade da história do andebol. Como treinador, ninguém em Portugal vai esquecê-lo por ter sido o primeiro a ter levado o Benfica ao título na Liga Europeia, o mais alto conquistado por um clube nacional. Formado em Espanha para uma profissão que nunca pensou abraçar, foi também do lado de cá da fronteira que tirou o Master Coach, razões mais que suficientes para considerar uma perspetiva ‘internacional’ que é cada vez mais ‘portuguesa’. Fica aqui a visão e os conselhos do técnico.

SportMagazine (SM) – A transição de jogador foi um processo natural?

Chema Rodriguez (CR) – Sim foi um processo natural deixar de ser jogador e ser treinador. Depois de uma carreira longa e de grande nível acabou ajudou a formar-me como treinador. Tive a sorte de ter muitos dos melhores treinadores do Mundo nas minhas equipas, como o Juan Carlos Pastor, Manolo Cadenas, Xavi Sabaté, Jesus Javier Gonzalez, António Carlos Ortega, que são treinadores que comandam equipas máximo nível. E pouco a pouco fui aprendendo com eles e retendo as coisas que se enquadravam nas características que considerava importantes no carácter de treinador. E foi-me formando, depois há todos os cursos de treinador. Passei por esse processo de formação em Espanha e depois tirei o Masters Coach aqui em Portugal. Também ajudou muito a minha formação.

SM – Dada a maior tradição de Espanha no andebol, comparando as formações feitas lá e o Master Coach que completou em Portugal, notou diferenças entre as formações dos dois países?

CR – Creio que já não há diferenças entre Espanha e Portugal a esse nível. Penso que os dois países, ao nível da formação de treinadores, encaixam-se no mesmo contexto, mais ou menos trabalhamos as mesmas coisas e têm uma ideologia bastante parecida e os cursos de formação são extraordinários tanto em Espanha como em Portugal. Podemos ver muitos treinadores espanhóis e portugueses a dar indistintamente aulas e a serem professores em qualquer um dos dois países. Tanto num país como noutro, penso serem das melhores formações que podemos encontrar na Europa e, sobretudo, porque cruzam-se os melhores formadores, formandos, treinadores, representantes do que há de melhor em cada área. E penso que, tanto em Portugal como em Espanha, deram as mãos no conhecimento e não há diferença entre um sítio e outro. Se não são as melhores, são, garantidamente, das melhores que há no mundo, tanto para formar treinadores como jogadores.

SM – O que a acrescentou formação ao que foi aprendendo durante a longa e notável carreira como andebolista?

CR – A formação acrescentou uma outra realidade, sobretudo. Como jogador estamos mais preocupados com inúmeras coisas, como estar preparado fisicamente, estar em forma, ouvir o que diz o treinador e tentar ganhar o máximo de partidas possível. É treinar e voltar para casa e não temos que pensar em tantas outras coisas que um treinador tem de ficar a planear uma vez findo o treino. E a formação ajudou-me muito, porque permitiu-me estar mais bem formado noutros planos que, na qualidade de jogador, não tinham a mesma importância, porque não precisava. Há muitas coisas que são do pelouro da equipa técnica, liderada pelo treinador, como a parte nutricional, psicológica, da preparação física. Todos estes são fatores sobre os quais a formação trouxe conhecimento que antes não tinha. Foi preponderante na parte técnico-tática, de tudo o que se faz dentro de campo, mas sobretudo na outra parte externa. Foi ajuda preciosa.

SM – Pela experiência que foi adquirindo, crê ser necessário acrescentar algo ao modelo de formação existente em Portugal?

CR – Eu penso que há um ou outro aspeto que a formação de treinadores podia ser melhorada. Uma tem a ver com o facto de sermos cada vez mais internacionais, estando cada vez menos nos nossos países e muitas vezes os idiomas são uma barreira. Não os controlamos tanto. Se houver algum tipo de formação nestes cursos associado às nomenclaturas, que sejam em inglês por exemplo, ou noutros idiomas para nos ajudar a comunicar melhor na hora de sair para o estrangeiro. No caso dos portugueses nem tanto porque dominam muito bem a língua inglesa, mas em Espanha a realidade não é essa, temos sempre mais dificuldade em ir para o estrangeiro devido aos idiomas. O inglês, francês ou alemão. E o ideal é que na formação houvesse uma parte ligada aos idiomas. Outro aspeto, tem a ver com a base do desporto, ao nível da formação de base, dos mais novos. Penso que a promoção do nosso desporto devia fazer parte da formação. Assim, em vez de estar na rua a brincar ou a praticar uma atividade física, depressa vai para casa para jogar a consola. As formações deviam dar-nos algumas ferramentas ao nível do marketing para trabalhar na captação de meninos que, num futuro, podem vir a ser alguns dos melhores da nossa modalidade, que é uma das melhores do mundo, atrativa de ver e, muitas vezes, parece-me que temos dificuldade em vender o nosso produto.

SM – Se tivesse que descrever um treinador ideal que características essenciais esse profissional precisaria ter?

CR – Muitas vezes só nos focamos no desportivo e no que se passa dentro do campo. Mas o êxito de um treinador e de uma equipa vai muito mais além. Tem de ser bom técnico e taticamente, no caso do andebol, um treinador formar o grupo, fazer a ponte com os dirigentes, organização com o staff, otimizar as condições que tem à disposição de forma que os objetivos traçados sejam concretizados. E que tudo o que possa potenciar a equipa de andebol e nunca prejudicá-la.

SM – O Chema Rodriguez também é selecionador nacional da Hungria, além de treinador do Benfica. O ‘mindset’ de um técnico tem de ser muito diferente de um para o outro?

CR – É totalmente diferente. Ser treinador é muito mais desgastante porque são todos os dias, todas as coisas boas e menos boas são do dia a dia, enquanto selecionador estamos muito menos tempo com a equipa, que por norma está sempre muito animada e muito contente e é muito mais fácil de trabalhar com o grupo. No entanto, também tem o seu lado mais complicado que se prende com o tipo de treinos. Porque uma coisa é preparar jogos durante uma temporada num campeonato nacional, outra é preparar um Campeonato do Mundo ou Campeonato da Europa, são dez ou 12 dias no máximo de treino e uma equipa para se adaptar, enquanto num clube podemos ter mais erros, pois a margem de solucioná-los é maior. Numa prova de seleções, um erro numa partida é muito mais penalizador. A margem de erro é muito menor. São ambos apaixonantes, mas muito diferentes. Ambos têm vantagem e desvantagens. No Europeu da Hungria [janeiro 2022], vejo a alegria dos miúdos com o Paulo [Jorge Pereira, selecionador nacional], de representar Portugal, e isso ajuda muito o trabalho.

SM – Ser treinador era uma meta traçada, desde cedo, ao longo da carreira como andebolista? Era esta a profissão de sonho enquanto criança?

CR – [risos] Não, de facto, nem sequer sonhava com toda a carreira que viria a ter como andebolista, quanto mais vir a ser treinador. Confesso que durante a carreira não me passava pela cabeça vir a ser treinador. Começou mais por incentivos dos companheiros que me motivavam a enveredar por esta profissão, que podia ser um bom futuro de carreira para mim. E eu dizia que não era bem o que pretendia, que era um trabalho muito complicado e quando era jogador, observava os treinadores e não me vislumbrava nada a fazer aquele trabalho. Depois, o destino provou que estava equivocado e cá estou eu a ser treinador. Animou-me esta transição, pois tornou-se uma boa perspetiva de futuro. E tive a sorte de tanto a federação da Hungria, como o Benfica terem confiado em mim para comandar as respetivas equipas.

SM – E os resultados estão à vista… A conquista da Liga Europeia pelo Benfica, a primeira da história do andebol português, faz de si um treinador realizado?

CR – Claro que sim. O que se passou na Altice Arena foi algo de espetacular. Quando conseguimos os resultados, para qualquer treinador o sentimento é sempre incrível. Não só por mim, mas por ver tanta gente feliz. Na Altice Arena vivemos isso. Demos alegrias e vimos as pessoas mais envolvidas e emocionadas com o andebol. Houve um sentimento de gratidão enorme, de orgulho. Eu fiz o meu trabalho, mas nem sempre se traduzem em resultados. Quando se ganha, em momentos como aquele, é extraordinário. Sabemos, no entanto, que no desporto somos fantásticos quando vencemos, e os piores quando perdemos. Sobretudo, o meu contentamento, nesta final 4 da Liga Europeia, foi ver a felicidade de alguns destes rapazes que já estão há tanto tempo no Benfica e já mereciam um título como este e a repercussão que esta conquista teve para eles, para o Benfica. Esperemos continuar a poder proporcionar estas alegrias. Muitas vezes só nos focamos no [aspeto] desportivo e no que se passa dentro do campo. Mas o êxito de um treinador e de uma equipa vai muito mais além”.

CHEMA RODRIGUEZ

José Maria Rodríguez Vaquero nasceu há 42 anos, em Autilla del Pino, Espanha, mas no mundo do andebol é conhecido por Chema Rodriguez. Como central deu cartas nos pavilhões, tanto pela seleção espanhola como pelos clubes cuja camisola defendeu. Foi campeão do mundo em 2005, ano em que venceu os Jogos Mediterrânicos. Foi um dos heróis do Ciudad Real, pelo qual conquistou duas edições da Liga dos Campeões (2007/08 e 2008/09) e a Supertaça Europeia (2008) antes do emblemático clube ser extinto em 2011 para dar Club Balonmano Atlético de Madrid, pelo qual Chema também jogou. No país natal, onde ainda militou pelo CB Valladolid e o La Salle Valladolid, totaliza 24 títulos, entre eles três na Liga Espanhola, cinco Supertaças e outras tantas edições da Taça da Liga. Depois rumou ao campeonato húngaro e, pelos magiares do Vészprém, conquistou cinco vezes a Liga do país e outras tantas edições da Taça da Hungria. Chema terminou a carreira como andebolista em 2019/20 ao fim de três temporadas nos franceses do Saran HB, emblema no qual fez a transição profissional como adjunto na equipa técnica gaulesa. Conciliou o cargo com o homólogo na seleção magiar e foi nessa condição que foi anunciado no mercado português em que entrou pelas portas do Benfica em 2020/2021, após assinar contrato até 2023. Este ano, assumiu o papel principal na equipa nacional dos magiares quando István Gulyás deixou o comando técnico após o fracasso de resultados num Europeu em que era anfitrião. Não levou o ambicionado título no Campeonato Placard Andebol 1 para a Luz, mas quebrou os 59 triunfos consecutivos do FC Porto que, ainda assim, não deixou escapar o título nacional. Embalado pelo trabalho e pela crença de Chema Rodriguez, apologista de que milagres acontecem, o Benfica deixou o melhor para o fi m da temporada e, perante uma Altice Arena a vibrar, fez história no andebol português, conquistando a Liga Europeia, derrubando o Magdeburgo, todo poderoso da Bundesliga.

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