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Campeã mundial, Ana Sofia Costa defende prémio para operadores de calha no boccia: “Dão sempre valor a mim e esquecem-se…”

Ana Sofia Costa ao lado de Celina Lourenço. Foto: Pcand Paralisia Cerebral Associação Nacional de Desporto

Única portuguesa a trazer a medalha de ouro do último Campeonato do Mundo de Boccia, que decorreu em dezembro no Brasil, Ana Sofia Costa é já uma das principais esperanças de pódio do país nos Jogos Paralímpicos de Paris, no próximo ano. Natural do Porto, mas desde 2010 a residir em Fátima, a atleta de 27 anos conversou com a SportMagazine para um balanço do ano que passou, mas sobretudo sobre as projeções daquilo que está por vir.

Diagnosticada com distrofia muscular aos dois anos de idade, Ana Sofia disputa as competições na categoria BC3. De acordo com a Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência (FPDD), esses jogadores possuem características funcionais mais limitadas, já que não conseguem arremessar as bolas.

“Para o lançamento das bolas, os atletas utilizam dispositivos auxiliares, calhas, capacetes com ponteiros e são sempre auxiliados por um acompanhante, que deve manter-se sempre de costas para a área de jogo. Se esta regra for quebrada o jogador sofrerá penalizações”, explica o organismo.

Por ser o auxiliar tão importante, a paralímpica do Centro João Paulo II defende que os operadores de calha que auxiliam os atletas do boccia. É o que ela deseja, por exemplo, para a sua parceira nas competições, a Celina Lourenço.

“Nós somos uma equipa. Uma sem a outra não consegue, não consegue. Na minha opinião, acho que ela devia ter os mesmos direitos a votos de louvor e prémios”, defendeu a portuense treinada por David Henriques.

Atleta do boccia desde 2010, Ana Sofia Costa, entre outros pontos abordados na entrevista, cobrou também maior divulgação da modalidade, destacou os objetivos para 2023 e falou com muita maturidade sobre o caminho que precisa percorrer até se garantir em Paris 2024.

SportMagazine (SM) – Regressou do Brasil com uma medalha de ouro e outras boas prestações no Mundial. Como avalia a sua participação na competição, satisfeita?

Ana Sofia Costa (ASC) – Sim, no geral estou satisfeita com os meus resultados. Na competição individual, tínhamos como objetivo os quartos de final. Tudo o que fosse além desse resultado era positivo. A obtenção da medalha de ouro foi um resultado incrível. No que diz respeito à competição coletiva fiquei um pouco desiludida com a minha prestação. Estava à espera de mais e sei que podia ter dado mais.

Foto: Pcand Paralisia Cerebral Associação Nacional de Desporto

SM – Pode fazer uma autoavaliação do ano que passou, onde também no Brasil conquistou a Taça do Mundo: 2022 correu como planeado?

ASC – O ano de 2022 iniciou com a Taça do Mundo no Brasil para onde não ia com grandes expectativas. Psicologicamente, não estava muito bem e os treinos também não estavam a correr da forma desejada. A conquista da medalha de ouro foi um excelente resultado e muito acima do que estava à espera.

De seguida vieram as provas nacionais: o Campeonato Nacional feminino, o Campeonato Nacional absoluto e o Campeonato Nacional de pares. Nestas provas o objetivo foi atingido. Consegui o título de campeã nacional feminina da classe BC3, consegui o 3º lugar no absoluto e nos pares também conseguimos o terceiro lugar. Nos pares, o objetivo era apenas a participação para ganhar ritmo desportivo, uma vez que, para os meus colegas era a primeira prova em que participavam no pós pandemia.

Em julho, na Taça do mundo que decorreu na Póvoa de Varzim, a minha prestação a nível individual ficou aquém do que eu esperava uma vez que não consegui passar a fase de grupos. Na competição de pares o objetivo foi atingido com a obtenção do 3.º lugar. Em novembro, na 1.ª volta Campeonato Regional Oliveira do Hospital atingi também o objetivo com a obtenção do 1.º lugar.

Na última competição do ano, o Campeonato do Mundo a obtenção da medalha de ouro e o título de campeã do mundo foi um extraordinário resultado, muito além do que inicialmente se previa. No geral, o ano de 2022 foi bastante positivo. Consegui algumas vitórias importantes e consegui atingir a maior parte dos objetivos nas provas em que participei.

SM – Qual diria que é a importância da Celina Lourenço e do seu treinador, o David Henriques, na sua evolução como atleta e nas suas conquistas?

ASC – A Celina é muito importante nas minhas conquistas. Graças a ela cheguei aonde estou hoje. Nós somos uma equipa: dois igual a um. Uma sem a outra não consegue, não consegue. Na minha opinião, acho que a Celina Lourenço devia ter os mesmos direitos a votos de louvor e prémios. Dão sempre valor a mim e esquecem-se da minha parceira de competição, do trabalho que ela tem, da dedicação, do amor etc. Nós somos uma.

A Celina, para me acompanhar nas competições e treinos, tem que deixar a família e muitas coisas que gosta de fazer. Nós temos que ter muita empatia uma pela outra para eu entender o que ela me quer dizer sem falar. Através do olhar eu consigo percebê-la e ela a mim. É necessário treinarmos juntas para que ela consiga perceber os meus e as minhas estratégias. As bolas mudam muito consoante o clima do campo, as posições das bolas etc. Por isso, temos que treinar muito. Ela também cuida de mim 24 horas por dia, quer no campo, quer fora dele. Devido às minhas necessidades e feitio, ela foi a única que aceitou o desafio. Desde que estou na Seleção, ela foi a minha parceira de competição, ajudou-me a crescer e a tornar o meu sonho em realidade. Graças a ela continuo a representar Portugal e cheguei aonde estou hoje.

SM – E relativamente ao seu treinador?

ASC – O meu treinador David foi quem me mostrou a modalidade, ajudou-me a evoluir e a gostar dela. Apoia-me quer ganhe ou perca e mostra-me algumas maneiras de fazer as jogadas. Ajuda-me a ver o que podemos trabalhar e de que forma. Também trata da parte burocrática para eu poder competir.

Também quero agradecer ao selecionador nacional por ter apostado em mim e acreditar no meu potencial. Aos meus treinadores da seleção e aos meus colegas quero também agradecer porque graças a eles também cresci e aprendi muitas estratégias e formas de pensar e ler o jogo. Também sou a atleta que sou por tudo o que me ensinaram.

SM – A olhar para o futuro: em Tóquio 2020 estreou-se nos Jogos Olímpicos e 2023 já é um ano pré-olímpico. O foco já passa a ser Paris 2024? E quais são os principais objetivos para 2023?

ASC – Sim, o foco já é Paris 2024. No entanto, antes de lá chegar há ainda provas importantes para obter resultados que me permitam lá estar.

Em 2023, no que diz respeito às provas nacionais, o meu objetivo é ganhar no campeonato regional e nacional feminino e atingir o pódio no campeonato nacional absoluto. Nas provas internacionais, a obtenção do título de campeã da Europa em termos individuais e coletivos é muito importante para estar em Paris em 2024. Nos restantes das provas (taça do mundo e challenger), o objetivo será o 1º lugar, no entanto, um lugar no pódio é também importante na caminhada para Paris.

SM – Por fim, como uma referência na modalidade e sendo campeã mundial em título, como avalia o desenvolvimento do boccia em Portugal?

ASC – Na minha opinião, o boccia em Portugal está já bastante evoluído. Estão a aparecer atletas mais novos, com bastantes capacidades de chegar longe, o que trás bastante competitividade à modalidade. Já não é sempre o mesmo a ganhar, Portugal já tem alguns atletas capazes de vencer, o que faz com que quem está na seleção não tenha o seu lugar garantido e que tenha que trabalhar bastante para se conseguir manter.

SM – que pontos podem ser melhorados?

ASC – Na minha opinião, um dos aspetos que poderiam melhorar a modalidade é a sua divulgação. Apesar de reconhecer que está a melhorar, acho que se houvesse mais divulgação iria haver mais apoios, mais patrocínios, mais gente a assistir às provas e principalmente a atrair novos atletas que estão “escondidos” em casa e que nem sequer sabem que existe uma modalidade chama Boccia. Esses atletas “escondidos”, poderiam um dia vir a ser grandes referências do Boccia.

Outro aspeto que poderia melhorar era a ligação com o desporto escolar. Se os atletas do desporto escolar participassem nas provas nacionais, evoluíam mais rapidamente, a modalidade era ainda mais competitiva e Portugal teria mais atletas que poderiam ir à Seleção.

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