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Inês Caetano:
Para formar um atleta é preciso um treinador e uma aldeiaExclusivo 

Inês Caetano. Foto: Youtube/reprodução

Inês Caetano (Sports Embassy)*

Nas duas últimas edições procurei lançar alguns desafios reflexivos aos treinadores, focando o tema das carreiras duais e do pós-carreira dos atletas em Portugal. Tais desafios prendem-se com o facto de acreditar verdadeiramente no papel dos treinadores, não como professores de competências técnicas e táticas específicas, de determinadas modalidades, mas como professores de competências (de uma forma abrangente ou integral). A grande questão que se coloca é se a formação de treinadores em Portugal prevê este papel tão transversal, porém completo e de suma importância? Diria que não. Ainda assim, todos os que passamos (no passado ou no presente) pelo Desporto conseguimos reconhecer o papel que os treinadores tiveram para as nossas vidas, seja do ponto de vista desportivo, ou não.

Não seria importante dar mais ferramentas aos treinadores neste sentido? E ferramentas que pudessem ser adaptadas não ao nível das competências técnicas e táticas exigidas aos treinadores nos níveis que lhes são atribuídos na obtenção do Título Profissional de Treinador/a de Desporto (TPTD), mas sim às diferentes faixas etárias dos Atletas? Não seria importante refletir nas competências de desenvolvimento social, psicossocial, pessoal, emocional, que os treinadores ajudam a desenvolver em determinadas faixas etárias? E dar ferramentas aos treinadores para saberem identificá-las e trabalhá-las dentro dos limites da sua intervenção junto dos seus Atletas?

Ao longo destes quase cinco anos em que tenho vindo a trabalhar nesta área da carreira dual e do pós-carreira tenho percebido a lacuna existente a este nível, naquilo que são as ferramentas ao dispor dos treinadores, e acredito ser preciso fazer algo nesse sentido. Se acredito que devem ser os próprios a ser exigentes com a oferta formativa disponível para o seu desenvolvimento, acredito também que é preciso fazer muito mais do que isso. Há que formar os dirigentes, para que também sejam exigentes neste campo. É fundamental contextualizar os pais. É preciso encontrar forma de envolver os diferentes agentes desportivos para aquilo que são as aprendizagens inerentes à prática desportiva, independentemente da modalidade desportiva em questão. No fundo, apelar à consciência e ação da comunidade desportiva no seu conjunto.

No entanto, falar destas competências e deixá-las à mercê ‘apenas’ do Desporto é ‘manter o sol tapado com a peneira’, pois não é o Desporto sozinho que vai resolver o tema das carreiras duais e da vida após a atividade desportiva para aqueles que o seguem profissionalmente ou em projetos de alto rendimento. Todos nós temos de ser mais exigentes no sentido de envolver outros organismos e entidades como seja o setor privado, mas, sobretudo, as entidades que tutelam a empregabilidade, a educação etc.

Não nos podemos esquecer de uma coisa muito importante: há, em Portugal, cerca de 68% de pessoas sedentárias. Isto quer dizer que, quando um atleta ou ex-atleta se dirige a uma empresa para iniciar a sua carreira profissional (quer seja no âmbito de uma carreira dual, quer seja já depois da sua carreira desportiva, eventualmente sem um curriculum com experiência técnica naquela profissão) tem 68% de probabilidade de encontrar alguém que nunca praticou atividade física e que, consequentemente terá dificuldade em compreender a pessoa, no seu contexto de carreira dual ou de pós-carreira. Terá o atleta as oportunidades que, eventualmente, poderia ter? Terá a compreensão necessária por parte da empresa? Qual o papel do clube numa circunstância destas? Do dirigente, do diretor desportivo/técnico, do treinador? E qual o papel de todos nós para consciencializar o atleta para uma preparação precoce que o permita estar preparado para este tipo de circunstâncias?

A Sports Embassy organizou o seu evento anual – YourFuture – no passado dia 31 de maio (com o importantíssimo apoio da SportMagazine), e abordámos esta temática. Contámos com vários testemunhos e foram muito enriquecedores, pois foram manifestados por pessoas com percursos e funções muito diferentes dentro do contexto desportivo (e não só!).

Aproveito ainda para deixar, em especial aos treinadores, algumas questões como desafio e contributo para promover esta análise por todos. Enquanto treinador, o que gostaria de ver abordado sobre a temática das soft skills adquiridas no Desporto? De que forma considera que os treinadores podem ser ajudados com diferentes ferramentas para uma abordagem diferente neste campo do treino desportivo?

*INÊS ALVES CAETANO, ex-atleta de pentatlo moderno, esteve muitos anos ligada à formação e treino personalizado e gestão desportiva. É fundadora da Sports Embassy, que se dedica à gestão da interação de ex-atletas com o universo empresarial.

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