2 de Outubro 2022 08:17
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Entrevista especial com Alexandre Santos: “A abordagem estratégica ao jogo empurrou o treinador português para a vanguarda”

Alexandre Santos, treinador português, atualmente no Petro Luanda. Fotos: Alexandre Santos/Divulgação

Treinador do Petro de Luanda, Alexandre Santos é mais um exemplo da exportação de competência técnica da classe. O comandante da equipa angolana fala à SportMagazine da evolução histórica da formação de treinadores em Portugal e de como o conhecimento, a apetência estratégica e a capacidade de integração em novos ambientes e contextos culturais estão a favorecer a afirmação nos palcos desportivos do mundo.

SportMagazine (SM) – Em que medida a estratégia aplicada ao treino e ao jogo tem favorecido a afirmação de competência dos treinadores portugueses no panorama internacional?

Alexandre Santos (AS) – Essa temática tem surgido com bastante frequência no espaço mediático, sobretudo relacionada com os treinadores de maior relevo. Eu diria que é algo que faz parte de uma escola de formação que tem na sua génese um conjunto de professores cujo contributo foi determinante para o que foi sendo a formação de treinadores em Portugal. Estou a referir-me a Mirandela da Costa, Carlos Queiroz, Jesualdo Ferreira, Nelo Vingada, entre outros. E também o Jorge Castelo, na parte que foi escrever livros e organizar conteúdos e matérias. Nestes autores já vinha muito bem determinado que a estratégia era algo fundamental da acção do treinador. Claro que a estratégia é transversal a todas as modalidades competitivas onde existe um adversário. A escola de formação de treinadores portugueses percebeu que a componente estratégica do jogo é determinante para o sucesso do mesmo e este paradigma foi sendo incorporado na formação e em todos os manuais e em todos os fóruns, com uma relevância que não tinha em outras correntes do treino do futebol na Europa, sobretudo na anglo-saxónica e na nórdica, que assentava muito mais no desenvolvimento do jogador e da equipa e não tanto na lógica estratégica. Claro que hoje já se pensa diferente em muitos destes países, mas durante muitos anos, os paradigmas dominantes no futebol, o germânico, o holandês, o inglesa ou o russo foram dando primazia aos fatores de desenvolvimento físico de cada jogador e da equipa. Eu acho que há aqui linhas mestras que foram empurrando o treinador de futebol português para a vanguarda do treino. O chavão do ‘modelo de jogo’, de que hoje se fala menos, foi sendo substituído pela referência a ‘plano estratégico’, ‘plano táctico-estratégico’ ou ‘estratégia de jogo’. Historicamente houve uma corrente de pensamento e uma escola de formação de treinadores que assentou muito na lógica do treino, mais para uma ideia de jogo e menos do ponto de vista técnico, táctico e físico. Eram dimensões isoladas entre si. Tudo encarnava num modelo de jogo e isso foi a primeira grande marca da afirmação do treinador português, primeiro cá e depois no futebol internacional. A Federação contribuiu para essa afirmação e as faculdades foram produzindo conhecimento que se refletiu na qualidade dos treinadores. Já treinei nos Emiratos e no Egipto, claro que em toda a parte conhecem o Mourinho, mas também reconhecem que a escola portuguesa de treinadores tem qualquer coisa diferente e inovador. Os treinadores portugueses foram marcando território por via dos sucessos desportivos e também pela produção de grandes jogadores. Isso também é mérito dos treinadores, descobrir e encaminhar o talento.

Alexandre Santos em mais um dia de trabalho no Petro Luanda

SM – O Artur Jorge já tinha sido campeão europeu muitos anos antes da era Mourinho.

AS – O Artur Jorge está na essência desta lógica, embora em tempos mais recuados. Ao nível das pessoas que produziram documentação estamos a falar de Jesualdo Ferreira, de Mirandela da Costa, do Manuel Sérgio numa vertente mais filosófica e epistemológica mas já a tocar em muitas destas matérias. O Carlos Queiroz que foi determinante, pegou nesse conhecimento e juntamente com o Jesualdo e o Nelo Vingada, foram trabalhar para a Federação e começaram a aparecer os primeiros resultados nas seleções. Mas temos muitos outros. O júlio Garganta, da Universidade do Porto, os próprios treinadores que saíram da Universidade do Porto, e muitas outras pessoas que foram cimentando teoricamente o trabalho que os treinadores começaram a fazer no terreno. Agora este edifício está organizado, mas antes era tudo mais avulso, cada entidade fazia os seus cursos. E é inevitável falar-se de uma personalidade com grande importância da teoria escrita do futebol, que é o Jorge Castelo, um dos grandes obreiros daquilo que nos últimos anos tem sido a formação e a regulação da formação de treinadores em Portugal, o Arnaldo Cunha, que foi diretor técnico da Federação Portuguesa de Futebol muitos anos, o professor Rui Caçador também. Se olharmos para os treinadores de futebol que são hoje de nível 3 ou de nível 4, foram formados pelo Castelo, cruzaram-se com a organização de conteúdos e o pensamento organizativo dele. A verdade é que o treinador português, quando chega a qualquer lado tenta logo implementar uma ideia de jogo e este pendor prático e operacional não existe em muitos treinadores de outras latitudes europeias.

SM – Mas esta lógica de implementar um modelo de jogo é educada pela formação, ou seja, vem da academia?

AS – Não tenho dúvidas. Não quero dizer que os treinadores da geração do Mário Wilson ou do Manuel de Oliveira não tivessem ideias e noções sobre este tema. Passou foi a ser muito mais relevante e desenvolvido, passou a ser escrito, sistematizado e organizado. O processo de treino passou a ser definido a partir dessa ideia de jogo. E a seguir veio outra questão, e aí acho que o Mourinho tem muita responsabilidade, pois deu visibilidade à importância da vertente estratégica no jogo. Ou seja, não sendo o primeiro, foi o que melhor demonstrou que, não tendo a melhor equipa – quando esteve no Porto – nem os melhores jogadores, conseguiu não só implementar uma ideia de jogo, mas também torná-la dominante em relação aos adversários que foram aparecendo. A equipa jogava de acordo como que era necessário para aquele jogo particular. E com a estratégia pensada para surpreender o adversário, que o Mourinho conseguiu. Claro que quem tem sucesso tem sempre razão. O José Peseiro também esteve a uma vitória de ganhar a Liga Europa e também conseguiu marcar aquela época com uma ideia de jogo muito própria. O Mourinho mostrou a todos os treinadores em Portugal que era possível, não só ter uma ideia de jogo, como também desenvolver competências estratégicas na equipa para ser mais forte nos duelos. E os treinadores e jogadores adversários começaram a perceber que as equipas treinadas por portugueses iam normalmente muito bem preparadas para o jogo, conheciam os processos do adversário e sabiam como os enfrentar. Isto é a essência da estratégia.

SM – Como é que integra a estratégia na metodologia do treino?

AS – Há treinadores que o fazem melhor do que outros e há treinadores que não ligam nenhuma ao tema. Os portugueses ligam muito, pois têm uma grande vontade de se quererem adaptar ao contexto onde estão e a estratégia é isso: ler o contexto, saber o que temos que enfrentar e sabermos ser mais fortes perante as previsíveis dificuldades que nos esperam. Isto é bagagem histórica do treinador português.

SM – A estratégia é dinâmica por definição. Como é que se ensina os jogadores a pensarem todos o mesmo ou até a pensarem coisas diferentes em momentos diferentes?

AS – Eu continuo a achar que antes da estratégia específica para qualquer adversário há uma questão que nos absorve durante muito mais tempo, que é o que queremos que a nossa equipa faça bem. Para tal, quanto melhores jogadores tivermos à disposição, melhor conseguiremos que interpretem essa ideia. No entanto, a estratégia nem sempre é bem entendida pelos jogadores quando estes acham que o treinador está excessivamente preocupado com o adversário e não está a treinar outras coisas que eles acham mais necessárias ou mais importantes. Ou até porque acham que são melhores que o adversário.

SM – E além das ferramentas para aprendizagem técnica, não é importante que haja já um grau evoluído de competências emocionais da parte dos jogadores? Que também podem se aprendidas e trabalhadas?

AS – Preparar estrategicamente uma equipa para ir jogar com um adversário poderoso pode obrigar a passar muito tempo sem bola e isso é algo que se treina, mas que os jogadores não gostam de treinar, porque consideram que lhes estão a querer dizer que os outros são melhores. Aqui podemos falar de liderança e falar de treinadores portugueses que têm tido muito sucesso. Mesmo quando estão perante um adversário mais dominador, sobretudo quando se trata da posse de bola, conseguem ser muito fortes e causar dano por que se prepararam estrategicamente muito bem. Dou o exemplo recente do Porto contra o Manchester City, na Liga dos Campeões. É evidente que todos os jogadores do Porto, por via da forte liderança do seu treinador, tiveram que perceber que dificilmente iriam ter muita posse de bola, que isso era uma guerra perdida. A estratégia teve que valorizar outros aspetos, como as formas de pressão, locais de pressão, formas de direcionar o jogo do adversário para poder causar estragos. O F.C.Porto não ganhou ao Manchester mas, na verdade, foi a única equipa que não perdeu com eles na fase de grupos. A estratégia montada foi determinante e isso só é possível quando o treinador tem uma forte liderança e consegue convencer e treinar a equipa, por vezes até mudando esporadicamente o seu ADN de jogo, em favor de outra abordagem que, naquela circunstância, terá melhor probabilidade de sucesso.

SM – Sente muitas vezes que não lhe basta a sua autoridade técnica como treinador mas precisa ali de uma capacidade persuasiva extra para convencer os jogadores?

AS – O treinador pode, até, dominar pouco as terminologias e os conceitos de treino, mas se aquilo que ele domina e põe em prática for tão convicto e tão capaz de se fazer acreditar, é garantidamente uma equipa mais próximo do sucesso. O treinador tem que saber o que quer mas os jogadores têm que acreditar nele. Esta é a parte mais difícil da liderança. Por exemplo o Santa Clara, que o ano passado ficou em quinto lugar. De certeza que teve que haver uma forte ligação entre a ideia de jogo do treinador e aqueles jogadores. A conexão entre o treinador e os jogadores fez a diferença.

Momento de orientação aos atletas antes do treino

SM – Fala-se muito de jogadores tacticamente indisciplinados. Isso é um problema para o treinador?

AS – O tacticamente indisciplinado é o jogador que, à partida, não faz o que o treinador quer que ele faça. Mas no futebol existe espaço onde a criatividade está muitas vezes associada ao tacticamente indisciplinado e a equipa deve ser capaz de colmatar esta indisciplina que, em alguns casos, dá um contributo de criatividade à equipa que nenhum outro dá. O futebol não é xadrez.

“O treinador pode, até, dominar pouco as terminologias e os conceitos de treino, mas se aquilo que ele domina e põe em prática for tão convicto e tão capaz de se fazer acreditar, é garantidamente uma equipa mais próximo do sucesso.”

SM – Isso leva-nos à ideia de espetáculo, de ‘jogar um futebol bonito’. Não é uma ideia romântica, na medida em que o interesse é ganhar?

AS – O treinador já está a passar para outro nível. Bonito é meter a bola na outra baliza, que cada vez é mais difícil, e evitar que entre na nossa. O Manchester City foi campeão com um modelo de jogo completamente diferente do Liverpool. Na verdade, qual é mais bonito? Qualquer ideia de jogo só é sustentável quando produz as vitórias suficientes para os objetivos da equipa. Mas há aqui uma outra ideia, que é a do futebol positivo, um futebol que quer ganhar e marcar golos. Isso é muito importante para sustentar a popularidade do futebol junto dos adeptos, que são quem consome a modalidade.

SM – Além de Portugal, também treinou no Egipto, no Abu Dhabi, na Arábia Saudita e em França. A formação curricular de treinadores em Portugal tem que nível de qualidade, por exemplo face ao que se passa nos países onde trabalhou?

AS – Existe em Portugal uma relação que não encontrei em nenhum outro país por onde passei, que é a relação entre a vertente do Ensino Superior e a vertente técnica das federações. Nunca foi uma relação planeada mas vai acontecendo. Há, claramente, um marco histórico da evolução da parte académica e da universidade ali na década de 70/80, com as faculdades de Lisboa e do Porto (antes disso com o INEF e depois com o ISEF). Cultiva-se um envolvimento e uma capacidade de se estudar e desenvolver o treino a nível académico que depois levou a que as federações, umas mais cedo do que outras, aproveitando este balanço da evolução académica no desporto e dos cursos de desporto, de educação física e de ciências do desporto, aproveitam para evoluir depois as componentes técnicas da formação dos treinadores. Neste momento, vejo uma preparação académica muito evoluída e, ao nível federativo, formações técnicas de treinadores também muito bem concebidas e estruturadas. Significa que os treinadores portugueses tiveram, e têm, a vantagem de ir beber a duas origens. Em Espanha também existe uma conexão entre Faculdades e as Federações. Na Suíça, por exemplo, para se ser preparador físico, só é preciso frequentar um curso na Federação. Em Portugal precisa de uma licenciatura, no mínimo.

“Já treinei nos Emiratos e no Egipto, claro que em toda a parte conhecem o Mourinho, mas também reconhecem que a escola portuguesa de treinadores tem qualquer coisa diferente e inovador.”

SM – De uma forma geral, nestas latitudes onde tem treinado, como é que olham para os treinadores portugueses?

AS – A primeira grande marca que o treinador português criou internacionalmente foi a criação de talentos, que foi validada quando fomos bicampeões mundiais de Sub-21. E isso semeou no mundo do futebol global a noção de que Portugal sabia desenvolver o talento de forma eficaz. Surge depois o Figo como melhor jogador do Mundo, o Peixe, o Rui Costa, o Jorge Costa, o Baía, o João Pinto, o Fernando Couto, etc…, que depois fizeram carreira internacional. Na era Queiroz começam a surgir muitos talentos jovens. Definitivamente porque o futebol se foi tornando mais mediático, a verdade é que também o Artur Jorge e o Carlos Queiroz saltam também para o estrangeiro. Foram os dois primeiros porta-estandartes dos treinadores portugueses. Claro que anos mais tarde surge o fenómeno Mourinho, que vem tornar mais visível a qualidade que já existia na formação dos treinadores em Portugal. E já existia o Fernando Santos, já fora considerado o treinador da década e várias vezes treinador do ano na Grécia. E depois vai para selecionador. E há outros. O Bernardino Pedroto foi pela primeira vez campeão em Angola há mais de 15 anos. O Henrique Calisto foi campeão no Vietnam, o Manuel José no Al-Ahly. Com o Mourinho, porque ganhou e porque tem uma personalidade marcante, Portugal passa a exportar treinadores de forma regular. O Leonardo Jardim, o Nuno Espírito Santo, o José Peseiro, o Vilas Boas, o Pedro Emanuel, o Paulo Sousa, o José Couceiro, entre outros. O treinador português é aventureiro e quando vai para algum lado não quer fazer o mínimo, quer marcar a diferença. Têm demonstrado que são muito intuitivos, rigorosos e trabalhadores. Edepois com aquela competência de que falei no início, de desenvolver uma ideia de jogo e uma estratégia muito operacional, muito focada no jogo.

*ALEXANDRE SANTOS, 44 anos, natural de Lisboa, é licenciado em Ciência do Desporto e Mestre em Treino de Alto Rendimento (Futebol) pela Faculdade de Motricidade Humana (FMH). Deu aulas na Escola Superior de Desporto de Rio Maior, onde foi assistente de José Peseiro, ligação que depois continuaria nos campos de futebol, foi treinador-adjunto no Sporting de Braga, no F.C.Porto, Estrela da Amadora e Vitória de Setúbal. Treinou no Egipto, no Abu Dhabi, na Arábia Saudita e em França. Atualmente é treinador do Petro de Luanda.

 

 

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